Campanha federal alerta álcool e violência na Copa 2026
Ministério da Justiça lança campanha "Violência contra a mulher não faz parte do jogo" no dia do Brasil x Haiti. Dados mostram alta de 24% nas ameaças em dias de jogos.

Campanha federal alerta para relação entre álcool e violência contra a mulher durante a Copa do Mundo 2026
A Copa do Mundo está em campo, mas nem toda tensão fica restrita aos gramados. O governo federal escolheu o maior evento esportivo do planeta para colocar em destaque um problema que não aparece nos placares — mas que cresce justamente nos dias em que o Brasil joga.
A campanha: "Violência contra a mulher não faz parte do jogo"
O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), em ação conjunta entre a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) e a Secretaria Nacional de Acesso à Justiça (Saju), lançou a campanha de conscientização "Violência contra a mulher não faz parte do jogo", que aborda a relação entre o consumo abusivo de álcool e a violência contra a mulher.
A vinheta foi publicada simultaneamente nas redes sociais oficiais das pastas 30 minutos antes da partida entre Brasil e Haiti, às 21h30 da sexta-feira (19), no horário de Brasília. O timing não foi acidental: estrear a campanha no primeiro jogo da seleção na Copa é uma escolha estratégica de visibilidade — o pico de audiência garante alcance imediato nas redes.
A ação é coordenada pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e pela Secretaria Nacional de Acesso à Justiça, e integra o Pacto Brasil Contra o Feminicídio.
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) também participa da campanha como parceira na divulgação. A ação foi construída a partir de uma proposta de mobilização conjunta formulada pelo MJSP no âmbito da Diretoria de Proteção e Reinserção Social da Senad e da Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom).
Os dados por trás da campanha
Os números que embasam a iniciativa são sérios e precisam ser lidos com atenção.
Estudos que fundamentam a campanha apontam que uma em cada três mulheres brasileiras já sofreu algum tipo de violência, e que, em dias de jogos, as ameaças aumentam 24%. Nesse cenário, mulheres cujos parceiros fazem uso abusivo de álcool têm mais do que o dobro de risco de sofrer violência doméstica.
O álcool aparece repetidamente como fator de risco associado — não como causa isolada, mas como catalisador. Nos registros de violência contra mulheres, há suspeita de consumo de álcool pelo agressor em pelo menos um quarto dos casos.
O cenário internacional aponta para o mesmo padrão. Dados registrados indicam que, durante grandes competições esportivas internacionais, as ligações telefônicas para números de combate à violência de gênero aumentam significativamente.
Como a campanha vai funcionar
A estratégia de distribuição prevê presença além das redes sociais. A Senad, por meio de assessores territoriais, articulou a veiculação gratuita do vídeo em espaços de socialização durante o período da Copa do Mundo — antes, durante o intervalo ou após os jogos da seleção brasileira.
A Saju ampliou a articulação com o Ministério do Empreendedorismo para expandir a rede de estabelecimentos parceiros na divulgação. Bares, restaurantes e outros pontos de encontro — justamente onde o consumo de álcool em dias de jogo é maior — entram como vetores da mensagem.
A secretária nacional de Acesso à Justiça, Sheila de Carvalho, aderiu à iniciativa e convidou 11 mulheres juristas para integrar a campanha, sob a liderança do ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva.
"Decidimos aproveitar o período da Copa do Mundo para trazer um olhar de prevenção e redução de danos aos casos de violência associados ao consumo excessivo de álcool porque, definitivamente, a violência não faz parte do jogo" — Marta Machado, secretária nacional de Políticas sobre Drogas.
O contexto: o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio
A campanha não nasce no vácuo. Ela se insere num arcabouço institucional que vem sendo construído desde o início de 2026.
O governo federal, o Congresso Nacional e o Poder Judiciário lançaram o Pacto Nacional – Brasil contra o Feminicídio em fevereiro de 2026, com o objetivo de atuar de forma coordenada e permanente para prevenir a violência contra meninas e mulheres no Brasil.
Dados do sistema judiciário mostram que, em 2025, a Justiça brasileira julgou em média 42 casos de feminicídio por dia, totalizando 15.453 julgamentos — alta de 17% em relação ao ano anterior. É nesse contexto de crise estrutural que a campanha da Copa ganha relevância: não é ação isolada, mas uma peça de um sistema mais amplo.
Em abril de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou três novas leis de enfrentamento à violência contra a mulher, que aperfeiçoam a Lei Maria da Penha. Entre elas, destaca-se a obrigatoriedade do monitoramento de agressores por meio de tornozeleira eletrônica, com alerta à vítima em caso de aproximação indevida.
Os países-sede da Copa também se moveram. Organizações dos Estados Unidos, do México e do Canadá lançaram várias campanhas contra a violência de gênero com vistas à realização dos jogos. A iniciativa é liderada pela Rede Nacional de Abrigos do México, a organização Abrigos para Mulheres do Canadá e a Rede Nacional para Acabar com a Violência Doméstica dos Estados Unidos.
Como denunciar
Em casos de violência contra a mulher, a orientação é denunciar. O serviço Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher funciona 24 horas por dia, todos os dias, de forma gratuita.
Análise: o que pode acontecer
Do ponto de vista analítico, a campanha representa um esforço legítimo de aproveitar janelas de alta atenção pública — os jogos da seleção — para injetar uma mensagem de prevenção em espaços de socialização onde o risco é concreto. A lógica é sólida: se o comportamento de risco (consumo de álcool em grupo, tensão emocional, noite longa) coincide com o contexto de jogo, é nesses momentos que a mensagem precisa aparecer. A pergunta que fica em aberto é se a campanha vai além do awareness e consegue mover alguma agulha nos índices de denúncias e, a prazo, nos números de violência.
Vale notar, porém, que campanhas de conscientização têm eficácia documentada principalmente quando associadas a mecanismos práticos — linhas de apoio acessíveis, presença de agentes em pontos de risco, resposta rápida de segurança pública. A campanha conecta esses elementos (Ligue 180, parceria com estabelecimentos), mas a capilaridade real depende de execução descentralizada, estado a estado, município a município.
Cenário base — campanha com impacto moderado de curto prazo: O efeito mais provável é o aumento temporário nas ligações para o Ligue 180 durante a Copa, como observado em edições anteriores de eventos esportivos ao redor do mundo. Esse aumento de demanda pode, no entanto, pressionar a capacidade de atendimento, o que torna crucial o reforço operacional do serviço durante o torneio.
Cenário positivo — legado institucional: Se a campanha conseguir consolidar a rede de estabelecimentos parceiros e manter a veiculação nos jogos ao longo de toda a Copa (até 19 de julho), ela pode criar um precedente e um modelo replicável para outros grandes eventos esportivos no Brasil — Brasileirão, Libertadores, Olimpíadas. O alcance vai além do futebol.
Cenário de risco — excesso de exposição sem infraestrutura: Campanhas de alta visibilidade que não são acompanhadas de capacidade de resposta real podem gerar frustração nas vítimas que buscam ajuda e não encontram agilidade no atendimento ou nas medidas protetivas. O gargalo histórico não é o número de denúncias — é a efetividade da resposta após a denúncia.
A aposta analítica da redação: o efeito imediato mais mensurável é o de agenda — a campanha coloca o tema na boca do brasileiro num momento de altíssima atenção coletiva, o que tem valor por si só. O curinga é a capacidade de execução descentralizada: sem estados e municípios alinhados, a mensagem nacional não se converte em proteção local.
Perguntas frequentes
O que é a campanha "Violência contra a mulher não faz parte do jogo"?
É uma campanha de conscientização lançada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em 19 de junho de 2026, que alerta para a relação entre o consumo abusivo de álcool e a violência contra a mulher, com foco nos jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo.
Quanto aumenta o risco de violência em dias de jogo?
Segundo os estudos que embasam a campanha, as ameaças contra mulheres aumentam cerca de 24% em dias de jogos. Mulheres cujos parceiros fazem uso abusivo de álcool têm mais do que o dobro de risco de sofrer violência doméstica.
Onde a campanha será veiculada?
Nas redes sociais do Ministério da Justiça, antes dos jogos da seleção brasileira, e também em espaços de socialização — como bares e restaurantes — articulados pela Senad e pelo Ministério do Empreendedorismo.
Como denunciar violência contra a mulher?
Pelo Ligue 180, a Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia, todos os dias, de forma gratuita.
Essa campanha faz parte de algum programa maior do governo?
Sim. Ela integra o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, assinado pelos três poderes em fevereiro de 2026, que prevê ações coordenadas de prevenção, proteção e responsabilização de agressores.
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