Selic: curva de DI amplia aposta em corte de 0,25 ponto
Com o Copom reunido a partir desta terça, a curva de DI precifica corte de 0,25 ponto na Selic para 14,25% ao ano — mas a inflação estouro de meta acende o sinal de alerta.

Selic: curva de DI amplia aposta em corte de 0,25 ponto no Copom de junho
O mercado financeiro chega à semana mais importante do semestre dividido — mas com uma aposta majoritária na mesa. A curva de DI (Depósito Interfinanceiro) sinaliza que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve cortar a Selic em 0,25 ponto percentual nesta quarta-feira, 17 de junho, levando a taxa de 14,50% para 14,25% ao ano. O problema é que o cenário não é simples, e uma parte crescente do mercado apostou — e ainda aposta — na manutenção da taxa.
O que a curva de DI está dizendo
A curva de juros futuros é o termômetro em tempo real das expectativas do mercado para a Selic. Nos últimos dias, ela oscilou significativamente. No início de junho, a curva chegou a apontar 50% de chance de corte de 25 pontos-base e 50% de chance de Selic estável, depois de ter exibido 70% de probabilidade de corte e 30% de manutenção na sessão anterior.
A semana do dia 5 de junho trouxe um choque. A curva de juros futuros encerrou as negociações daquela sexta-feira em forte alta, com disparada de mais de 40 pontos-base nos vértices de médio e longo prazos, com a curva precificando 68% de chance de manutenção da Selic em 14,50% ao ano. Foi a primeira vez, desde o fim de março, que o mercado teve como aposta majoritária a pausa no ciclo de cortes.
A virada, porém, não se consolidou. A aposta dominante do mercado voltou a ser o corte de 0,25 ponto percentual na Selic, embora analistas passassem a ver uma probabilidade maior de manutenção da taxa de juros, principalmente após o resultado da inflação de maio vir acima do esperado.
Por que a inflação virou o nó do debate
O pano de fundo que explica toda essa volatilidade na curva tem nome: IPCA. O IPCA de maio bateu 4,72% em 12 meses, estouro do teto da meta para a inflação — e foi a primeira vez desde outubro de 2025 que a inflação em 12 meses voltou a superar o teto de 4,5%. O centro da meta é de 3%, com margem de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.
No Brasil, o principal vetor de alta dos juros futuros seguiu sendo a revisão para cima das projeções de inflação e juros, após dados mais fortes de atividade, como o PIB, o que reduziu as apostas em cortes adicionais da Selic. O mercado passou a precificar maior probabilidade de interrupção do ciclo de flexibilização já nas próximas reuniões do Copom.
O Boletim Focus de 8 de junho de 2026 — que reúne as projeções de mais de 100 instituições financeiras consultadas pelo Banco Central — captou esse movimento. O Focus aponta corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic de 14,50% para 14,25%, mas a inflação resistente e o cenário externo nublado acendem o sinal de atenção. A mediana das expectativas para a Selic no fim de 2026 subiu para 13,50%, com o IPCA avançando para 5,11% neste ano e 4,03% em 2027.
O que dizem os grandes bancos e gestoras
O mercado está longe do consenso. Veja as principais posições:
Itaú: O banco vê espaço para "um novo, modesto, corte de juros na decisão de junho", de 0,25 ponto percentual, deixando "o futuro em aberto", com a autoridade monetária comunicando que o espaço para calibração adicional é incerto.
J.P. Morgan: A equipe defende o corte sob o argumento de que a política permanece restritiva e atua como um seguro contra um aperto excessivo na economia.
Bank of America: O BofA revisou sua projeção para a taxa Selic e passou a esperar apenas mais um corte de juros em 2026, o que levaria a taxa básica a 14,25% ao fim do ano — e esse corte de junho seria o último do ciclo atual, seguido de uma pausa que deve se estender até meados de 2027.
Warren Investimentos: A Warren projeta que o BC deverá manter a Selic inalterada em 14,50%, mantendo um tom neutro na comunicação, podendo voltar a encontrar espaço para cortes apenas na última reunião do ano — o que levaria a Selic a encerrar 2026 em 14,25%.
XP: A XP alterou seu cenário-base e passou a prever a taxa Selic em 14% e IPCA em 5,3% ao fim de 2026.
BTG Pactual: O BTG ajustou a estimativa do IPCA de 4,9% para 5,3% em 2026, incorporando formalmente o repasse do choque do petróleo e os riscos climáticos associados ao fenômeno El Niño.
Em suma: quem aposta no corte em junho está dividido sobre se ele será o último ou o penúltimo do ciclo. Quem aposta na manutenção vê um BC que não pode se dar ao luxo de cortar com o IPCA no teto.
O que está em jogo além da decisão em si
Mais do que a decisão em si, o mercado vai analisar o tom do comunicado do Banco Central. A escolha das palavras pode indicar se novos cortes estão no radar ou se o Copom pretende manter a Selic em patamar elevado por mais tempo.
Para sinalizar o encerramento do ciclo, o Copom pode alterar a linguagem do comunicado — elevando o patamar necessário para novos cortes. A remoção do forward guidance em torno da "calibração contínua" sinalizaria que a barra para cortes adicionais se tornou significativamente mais alta.
A indústria também tem voz nesse debate. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avalia que a política monetária permanece em terreno excessivamente restritivo, com a taxa real em torno de 10% ao ano, o dobro da taxa neutra estimada pelo Banco Central. Para o setor produtivo, manter a Selic elevada por mais tempo é uma escolha com custo real em crédito, emprego e investimento.
Análise: o que pode acontecer
O cenário atual tem uma peculiaridade que vale destacar: o debate não é mais se o ciclo de cortes vai terminar logo, mas quando — e o comunicado de quarta pode ser a resposta.
A inflação acima do teto da meta em maio não é um dado que o BC pode ignorar na comunicação. Isso não significa, necessariamente, que o corte será suspenso, mas significa que o Copom vai precisar justificar a decisão com muito cuidado. Um corte acompanhado de linguagem dura — sinalizando pausa longa — é, a nosso ver, o desfecho mais provável. Seria o jeito de cortar sem perder credibilidade.
Cenário base (mais provável): O Copom corta 0,25 ponto percentual, levando a Selic a 14,25% ao ano, e endurece o tom do comunicado, removendo ou relativizando o guidance de "calibração contínua". O mercado interpreta isso como fim do ciclo em 2026. A curva de DI segue pressionada no médio e longo prazos. Para o cidadão, o crédito permanece caro, mas a direção da taxa — ainda que devagar — é de queda marginal.
Cenário alternativo (manutenção): O Copom decide pausar, mantendo a Selic em 14,50% ao ano. O argumento seria a inflação acima do teto e as expectativas desancoradas do Focus. Nesse caso, o mercado seria pego de surpresa — haveria alta nos juros futuros curtos e possível abertura do câmbio. A credibilidade do BC seria testada: pausar seria defensável tecnicamente, mas o mercado avaliaria o sinal como hawkish e possivelmente precificaria menos cortes ao longo de 2026 e 2027.
Cenário de risco (comunicado dovish com corte): O BC corta e mantém abertura para novos cortes. Esse seria o desfecho menos provável, dado o quadro inflacionário, e o que mais poderia gerar desconforto no mercado, com risco de depreciação do real e abertura de juros longos.
A leitura mais provável desta redação: corte de 0,25 ponto com comunicado duro e encerramento do ciclo sinalizado — o "último corte com recado". O curinga é um dado positivo de inflação ou atividade que mude o cálculo antes do anúncio de quarta-feira.
Perguntas frequentes
quando o copom anuncia a decisão sobre a selic em junho de 2026?
A reunião do Copom ocorre nos dias 16 e 17 de junho de 2026. A decisão sobre a Selic é divulgada ao fim do segundo dia — na quarta-feira, 17 de junho —, após o fechamento do mercado, pelo site oficial do Banco Central.
qual é a selic atual e o que o mercado espera?
A Selic está em 14,50% ao ano. O cenário majoritário no mercado aponta para um corte de 0,25 ponto percentual, que levaria a taxa para 14,25% ao ano. Mas há uma parcela relevante de analistas que defendem a manutenção dos juros, principalmente após o IPCA de maio fechar em 4,72% em 12 meses, estouro o teto da meta de inflação.
o que muda no bolso do brasileiro se o copom cortar a selic?
Um corte de apenas 0,25 ponto percentual tem impacto marginal no curto prazo. O crédito segue caro, especialmente o rotativo e o parcelado. Para quem tem renda fixa pós-fixada (CDB, Tesouro Selic), a remuneração cai levemente. O efeito real sobre juros de financiamentos e empréstimos tende a ser sentido gradualmente, ao longo de um ciclo mais amplo de redução.
qual a projeção para a selic no fim de 2026?
As projeções variam bastante entre as instituições. O Boletim Focus de 8 de junho de 2026 trouxe mediana de 13,50% para o fim do ano. Já o Bank of America projeta 14,25% ao ano — apenas um corte em todo o ciclo de 2026. BNP Paribas e Itaú estimam paradas diferentes ao longo do semestre.
por que a curva de di é importante para entender a selic?
A curva de DI (Depósito Interfinanceiro) é o principal termômetro das expectativas do mercado para os juros futuros no Brasil. Ela reflete, em tempo real, a probabilidade que os agentes financeiros atribuem a cada decisão do Copom. Quando a curva sobe, o mercado está apostando em juros mais altos por mais tempo; quando cai, sinaliza que espera afrouxamento monetário à frente.
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