Custo Brasil pressiona logística: reforma tributária é saída?
Custo logístico chega a 15,5% do PIB e 52% das empresas preveem alta nos fretes em 2026. Entenda o que a reforma tributária pode — e o que não pode — resolver.

Custo Brasil pressiona logística: reforma tributária é a saída?
O Brasil exportou mais do que nunca em 2025, mas carrega um paradoxo caro. Quanto mais cresce o comércio, mais evidente fica o gargalo que drena competitividade: um custo logístico que engole fatia expressiva de cada real produzido no país — e que teima em não cair.
O número que assusta: 15,5% do PIB
Os custos logísticos no Brasil atingiram R$ 1,96 trilhão em 2025, equivalente a 15,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, segundo o estudo anual "Custos Logísticos e o Impacto nas Empresas Brasileiras", do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos).
Para ter dimensão da distorção: o valor é quase o dobro da relação registrada nos Estados Unidos (8,8%) e significativamente acima da média europeia (8,5% a 10,2%).
Houve leve queda em relação aos 15,6% de 2024, mas o patamar é considerado insatisfatório. Em 2014, essas despesas representavam 10,4% do PIB — a alta acumulada em dez anos é considerável.
Para o sócio-diretor do Ilos, Maurício Lima, o ritmo de queda é o problema central: "No Brasil, está caindo muito pouco." O ponto mais curioso, segundo ele, é que, apesar do custo alto, as empresas do setor tampouco aumentaram seus lucros — o preço médio do frete e dos combustíveis está estável, mas as margens seguem apertadas.
O que compõe esse custo
Os principais componentes são transporte (8,5% do PIB), estoques (5,3%), armazenagem (1,0%) e custos administrativos (0,6%). O custo com estoques praticamente dobrou desde 2014, reflexo de cadeias logísticas lentas que obrigam empresas a manter mais mercadoria parada.
A armadilha da dependência rodoviária
O diagnóstico não é novo, mas a solução segue travada. O Brasil passa por um fenômeno que envolve o conjunto de taxa de juros elevada, com a Selic ainda em patamar alto, e um déficit considerável de infraestrutura para escoamento e armazenagem da produção, incluindo a baixa capacidade de diversificar os modais.
Em um cenário global marcado por tensões geopolíticas e alta no preço do petróleo, a dependência quase absoluta do transporte rodoviário revela uma fragilidade estrutural que encarece a produção e limita o crescimento do país.
Enquanto isso, nos últimos dez anos, o país transportou 25% a mais de carga praticamente com a mesma infraestrutura, gerando pressão crescente sobre os custos.
As raízes estruturais dos custos logísticos no Brasil estão ligadas a falhas históricas de investimento em infraestrutura, especialmente nos modais de longa distância. O transporte de longa distância — seja de matéria-prima ou de produto acabado — responde por cerca de 42% do custo logístico total das empresas embarcadoras.
O sub-investimento em infraestrutura é histórico. Segundo levantamento da CNT, o país investiu, em média, 0,21% do PIB em transporte entre 2010 e 2021, o menor percentual entre 50 países analisados.
O custo dos juros altos
O ambiente macroeconômico amplifica o problema. Em junho de 2026, o Copom reduziu a Selic para 14,25% ao ano, numa decisão unânime. Ainda assim, com juros elevados, o capital imobilizado fica mais caro, ampliando a pressão financeira sobre empresas e operadores.
O Boletim Focus mais recente aponta que os analistas de mercado elevaram a estimativa para a taxa básica até o fim de 2026, de 13,75% ao ano para 14% ao ano. Juros elevados encarecem estoques, financiamentos de frota e capital de giro — todos componentes diretos do custo logístico.
O alerta das empresas para 2026
O pessimismo do setor produtivo é medido em dados. Um estudo do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos) mostra que 52% das empresas brasileiras esperam aumento nos preços do transporte para 2026.
Segmentos como materiais de construção, higiene e cosméticos estão entre os mais impactados. Nesses setores, a logística já representa entre 10% e 14% da receita líquida das companhias.
Na avaliação da indústria, segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o impacto do conjunto de ineficiências do chamado Custo Brasil atinge cerca de R$ 1,7 trilhão por ano, equivalente a 19,5% do PIB. Dentro desse cenário, a carga tributária aparece como principal fator de preocupação para 70% dos empresários brasileiros.
Reforma tributária: promessa ou solução real?
É nesse cenário que a reforma tributária entra em cena — mais como expectativa estrutural do que como alívio imediato.
A regulamentação da reforma tributária, estabelecida pelas Leis Complementares nº 214/2025 e nº 227/2026, surge como principal aposta para reduzir a complexidade do sistema. O novo modelo, baseado no IVA Dual, prevê a substituição de tributos como PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS, com o objetivo de simplificar a estrutura fiscal, eliminar a cumulatividade e reduzir distorções históricas que encarecem a operação logística.
O potencial é real. Despesas que hoje não geram crédito, como transporte, armazenagem, energia elétrica, movimentação portuária e serviços operacionais, passam a ser plenamente creditáveis, o que contribui para reduzir o impacto efetivo da tributação e ampliar a previsibilidade fiscal das operações.
Outro efeito esperado é o fim da "guerra fiscal" entre estados. Por décadas, a chamada guerra fiscal moldou cadeias produtivas e redes de distribuição. Empresas decidiram onde produzir e armazenar não apenas pela eficiência operacional, mas pelos incentivos tributários oferecidos por alguns estados. Com a reforma, a tributação passará a ser feita no local de consumo e não mais na origem, o que levará empresas a repensarem rotas e centros de distribuição com base em eficiência real, não em benefícios fiscais.
O que muda em 2026 — e o que ainda está por vir
A transição é gradual e o impacto imediato é limitado. Em 2026, iniciou-se a fase experimental: não haverá pagamento efetivo dos tributos CBS e IBS, mas as empresas deverão destacar essas tributações nos documentos fiscais com alíquotas teste, sem recolhimento efetivo — o período é dedicado a mapeamento das operações e adequação de sistemas.
A partir de 2027, o PIS e a Cofins serão extintos, dando lugar integralmente à CBS. Em paralelo, o ICMS e o ISS começarão a ser reduzidos gradualmente até serem totalmente substituídos pelo IBS em 2033.
Mas há riscos no caminho. Atualmente, a alíquota combinada de PIS e Cofins no setor de transporte gira em torno de 19,5%. Com a reforma, o IBS pode chegar a 25%, um aumento expressivo que impacta diretamente o custo do frete — e que pode encarecer caminhões, implementos e combustível, com potencial efeito cascata sobre os preços ao consumidor.
Outro ponto de tensão envolve as pequenas transportadoras. Na prática, mais de 200 mil transportadoras poderão ser 'obrigadas' a migrarem para o Regime Regular, operando como se estivessem no Lucro Real — um grande ônus operacional de adaptação.
Análise: o que pode acontecer
A leitura mais honesta sobre o Custo Brasil na logística é a seguinte: o problema é estrutural, multicausal e não será resolvido por nenhuma medida isolada. A reforma tributária endereça uma fatia importante — a cumulatividade e a guerra fiscal —, mas não toca nos gargalos de infraestrutura, na dependência rodoviária nem nos juros altos que encarecem estoques. Dizer que a reforma "resolve" o Custo Brasil é, portanto, uma simplificação perigosa. O que ela pode fazer, se bem implementada, é remover uma camada relevante de distorção e dar mais previsibilidade ao planejamento empresarial.
O grande risco é exatamente o que a história da gestão pública brasileira ensina: a execução. O cronograma de transição vai até 2033 — sete anos durante os quais antigo e novo sistema coexistirão, exigindo adaptação tecnológica cara, especialmente para as empresas menores.
Cenário base — transição gradual com ganhos parciais: A reforma avança conforme o cronograma, a fase experimental de 2026 sem recolhimento efetivo cria espaço para adaptação, e a partir de 2027 as empresas mais capitalizadas capturam o benefício da não cumulatividade. O custo logístico recua lentamente em relação ao PIB, mas sem saltar abaixo de 13% antes de 2030 — distante do patamar de 12% do período pré-pandemia que o Ilos aponta como referência desejável. Probabilidade: alta.
Cenário otimista — aceleração do investimento em infraestrutura: Se o governo combinar a reforma com execução efetiva do orçamento de transportes (a LOA 2026 previu R$ 18,18 bilhões, mas a execução inicial foi de apenas R$ 870,7 milhões), e se a Selic continuar cedendo rumo aos 12% previstos para 2027, o alívio sobre estoques e capital de giro acelera o recuo do custo logístico. Nesse cenário, a competitividade das exportações brasileiras melhora de forma mais consistente. Probabilidade: moderada — depende de variáveis fiscais e macroeconômicas fora do controle do setor.
Cenário de risco — sobrecarga na transição: Pequenas transportadoras, pressionadas pela migração compulsória ao Lucro Real e pela elevação potencial da alíquota efetiva, repassam custos ao frete. Consumidores e exportadores absorvem o choque antes que os benefícios da não cumulatividade se materializem. O custo logístico permanece acima de 14% do PIB por mais tempo. Probabilidade: moderada, especialmente para os primeiros dois anos de transição.
A aposta analítica desta redação é o cenário base: a reforma é um passo necessário, mas insuficiente. O curinga é a execução orçamentária em infraestrutura — historicamente o maior calcanhar de Aquiles do Brasil e o único capaz de mudar o patamar estrutural do custo logístico no médio prazo.
Perguntas frequentes
o que é o custo brasil na logística?
O Custo Brasil na logística é o conjunto de ineficiências que encarecem a operação de transporte e distribuição no país — incluindo alta carga tributária, infraestrutura precária, dependência do modal rodoviário e juros elevados. Segundo o Ilos, os custos logísticos chegaram a 15,5% do PIB em 2025, quase o dobro da média dos EUA.
quando a reforma tributária começa a valer para o transporte?
A fase experimental começou em 2026, com alíquotas de teste zeradas para CBS e IBS. O impacto efetivo no frete começa em 2027, quando o PIS e a Cofins serão extintos e a CBS passa a valer. O sistema antigo e o novo coexistirão até 2033, quando o ICMS e o ISS serão completamente substituídos pelo IBS.
a reforma tributária vai baratear o frete?
Não necessariamente de imediato. No médio prazo, a eliminação da cumulatividade e o crédito amplo sobre insumos como combustível, pneus e armazenagem tendem a reduzir distorções. No curto prazo, porém, há risco de aumento de alíquota efetiva sobre serviços de transporte e sobrecarga para pequenas transportadoras.
quem ganha e quem perde com essa transição?
Ganham as grandes empresas logísticas capitalizadas, com estrutura para adaptar sistemas e aproveitar créditos tributários. Perdem, no curto prazo, as transportadoras de pequeno porte — que podem ser forçadas a migrar do Simples Nacional para o Regime Regular — e os consumidores, caso o aumento de custo seja repassado ao preço final dos fretes.
qual o impacto dos juros altos no custo logístico?
Juros elevados encarecem capital de giro, financiamentos de frota e o custo de manter estoques. Com a Selic em 14,25% ao ano em junho de 2026, o custo do capital imobilizado em mercadorias paradas representa uma parcela relevante dos 15,5% do PIB que o Brasil gasta com logística.
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