Política & Mercado

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Desaceleração da economia ganha força no 2º semestre

PIB forte no início do ano não engana: analistas e consultorias preveem perda de fôlego relevante a partir de julho, com juros altos, eleições e pressão externa combinados.

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Daniel Krust
··8 min de leitura
Economista Alessandra Ribeiro da Tendências Consultoria em conferência com gráfico de desaceleração do PIB ao fundo

Desaceleração da economia ganha força no segundo semestre, alertam analistas

O Brasil começou 2026 com o pé no acelerador. Mas a velocidade de cruzeiro pode não durar: um conjunto amplo de economistas, consultorias e organismos internacionais converge num diagnóstico incômodo — a partir de julho, o ritmo da atividade tende a cair de forma relevante. O debate não é mais se haverá desaceleração, mas quão intensa ela será.

O que está por trás do alerta

Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de Macroeconomia e Análise Setorial da Tendências Consultoria, é uma das vozes mais ativas nesse diagnóstico. Com mestrado em Economia e Finanças pela FGV e formação pela Unicamp, ela aponta que o cenário externo chegou a 2026 com "menos impulso e mais dúvidas", pressionado por tarifas americanas, desaceleração chinesa e juros nos EUA que devem ceder mais devagar do que se imaginava.

O arrefecimento global já pode ser observado em diversos indicadores e tende a ser mais evidente ao longo de 2026, com efeitos que não se restringem aos EUA e alcançam também a Europa, que segue em crescimento modesto.

No campo doméstico, o motor do freio é mais direto: juros. Apesar das tensões em torno da guerra no Oriente Médio, o Banco Central cortou a Selic pela segunda vez seguida, por unanimidade, reduzindo a taxa em 0,25 ponto percentual, para 14,5% ao ano. O corte é real — mas a taxa ainda é extraordinariamente restritiva para os padrões históricos brasileiros.

O ritmo de crescimento dá sinais de desaceleração, limitado pelos juros elevados e por um cenário internacional incerto.

PIB: primeiro trimestre surpreende, mas há ressalvas

O crescimento de 1,1% do PIB no primeiro trimestre de 2026 ficou levemente acima do esperado pelo próprio governo. A composição desse avanço, no entanto, foi diferente da esperada: a indústria teve desempenho melhor que o previsto, enquanto os setores de serviços e agropecuária ficaram levemente abaixo das estimativas.

O Ministério da Fazenda mantém projeção de alta de 2,3% para o ano inteiro, sustentada por indústria e serviços. Mas a Secretaria de Política Econômica avaliou que a economia brasileira deve perder ritmo no segundo e no terceiro trimestres, em razão da redução gradual dos efeitos de políticas públicas sobre a atividade — ainda que o governo considere que a queda do custo do crédito possa compensar parte dessa desaceleração.

O mercado financeiro é mais cético. Segundo a última edição do boletim Focus, os analistas econômicos preveem expansão de 1,85% do PIB em 2026 — bem abaixo da estimativa oficial da Fazenda.

O peso do calendário eleitoral

Há um componente político que amplifica a leitura técnica. Em ano eleitoral, os estímulos do governo devem ficar concentrados no primeiro semestre, e no segundo semestre tem desaceleração porque no último trimestre há efeito espera dos agentes econômicos, esperando para ver o cenário eleitoral, explica Rafael Perez, economista da Suno Research.

Esse "efeito espera" não é inédito — é um padrão observado em ciclos eleitorais anteriores: empresas adiam investimentos, famílias seguram decisões de crédito relevante e o mercado financeiro exige prêmio de risco maior enquanto as pesquisas eleitorais não definem um cenário claro.

Inflação como variável complicadora

O Banco Central teria mais margem para cortar juros e suavizar a desaceleração — não fosse a inflação teimosa. Segundo o último boletim Focus, a estimativa de inflação para 2026 subiu para 4,86%, por causa do conflito no Oriente Médio — representando inflação acima do teto da meta contínua estabelecida pelo CMN, que está em 3%, podendo chegar a 4,5% por causa do intervalo de tolerância.

Isso comprime o espaço de manobra do Copom. Após semanas projetando 12,50%, o consenso do mercado agora espera uma taxa básica de juros em 13% ao fim de 2026. A XP foi mais longe: elevou a projeção para o IPCA de 2026 de 3,8% para 4,8% e subiu o piso esperado para a Selic ao final do ano, de 12,75% para 13,50%.

Apesar de um mercado de trabalho ainda robusto, prevalecem os efeitos defasados e contemporâneos da política monetária restritiva. Esse ambiente desestimula o investimento privado e pressiona o orçamento das famílias ao encarecer o crédito ao consumo. O resultado esperado é um "pouso suave" da economia: sem ruptura abrupta da atividade, mas com perda clara de fôlego da demanda interna.

O cenário global também não ajuda

As instituições multilaterais convergem num diagnóstico parecido. O FMI reduziu a projeção de crescimento da economia global para 2026 e alertou para o risco de recessão caso a guerra no Oriente Médio se prolongue. Ao mesmo tempo, elevou a estimativa para o Brasil, impulsionado pela alta das commodities energéticas. O crescimento do PIB global foi revisado de 3,3% para 3,1% em 2026.

Apesar do ambiente externo mais desafiador, o Brasil aparece entre os poucos países com revisão positiva nas projeções. O FMI atribui esse movimento ao aumento das receitas com exportações de petróleo e outras commodities. Ainda assim, o crescimento brasileiro segue moderado em comparação com outras economias emergentes.

Já o Banco Mundial foi na direção contrária à Fazenda: revisou para baixo a previsão de crescimento da economia brasileira em 2026, reduzindo a estimativa de 2% para 1,6%. A projeção do Banco Mundial se alinha à do Banco Central brasileiro, mas fica abaixo da projeção do mercado financeiro, divulgada no boletim Focus, de 1,85%, e da previsão do Ministério da Fazenda, de 2,3%.

Endividamento das famílias: o ponto cego do debate

Um fator que merece mais atenção do que recebe é a situação financeira das famílias brasileiras. O economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina e Caribe, William Maloney, apontou que a redução da projeção reflete efeitos externos, como o choque nos preços do petróleo, e internos, incluindo as altas taxas de juros que afetam consumidores endividados.

A ONU reforça o alerta da comunidade internacional para os desafios fiscais do Brasil. A relação entre a dívida bruta do governo geral e o PIB ultrapassou 90% no ano passado, atingindo 91,4%, ante 87,3% em 2024.

Análise: o que pode acontecer

O diagnóstico de desaceleração no segundo semestre está longe de ser um cenário-catástrofe — mas também não deve ser tratado como fatalidade administrável sem custo. O ponto mais crítico desta equação é a combinação entre inflação acima da meta e juros ainda muito restritivos num ano eleitoral: o Banco Central ficará pressionado de dois lados — de um lado, o mercado exige cautela com os preços; do outro, a atividade dando sinais de freio aumenta a pressão política por cortes mais rápidos. Navegar esse trade-off sem perder credibilidade é o verdadeiro teste do Copom no segundo semestre.

Cenário base (mais provável): A economia perde fôlego entre julho e setembro — como já ocorreu em 2025 —, mas sem ruptura. O Copom mantém ritmo gradual de cortes, a Selic encerra o ano entre 13% e 13,5% e o PIB fecha 2026 entre 1,8% e 2%. O consumo das famílias sustenta parte da demanda, apoiado pelo nível de emprego ainda resiliente, mas o crédito caro contém o ímpeto. É um "pouso suave" com turbulência moderada.

Cenário de piora (se a inflação não ceder): Se o IPCA se firmar acima de 4,8% e as expectativas seguirem subindo, o Copom pode interromper o ciclo de cortes ou até inverter a direção. Nesse caso, a Selic fecha o ano mais perto de 14% do que de 13%, o crédito permanece caro, o investimento privado recua mais do que o esperado e o PIB termina abaixo de 1,5%. Esse cenário exigiria revisões dolorosas nas projeções de emprego e consumo para 2027.

Cenário de alívio (se o externo ajudar): Caso o conflito no Oriente Médio recue, o petróleo arrefeça e o dólar perca força frente ao real, a inflação pode desacelerar mais rápido do que o esperado. O Copom ganharia margem para cortes de 50 pontos-base a partir de agosto, o crédito baratearia e o segundo semestre poderia surpreender positivamente. Menos provável, mas não descartável.

A aposta analítica desta redação: o cenário base é o mais sustentado pelos dados disponíveis. A desaceleração no segundo semestre é quase certa — a questão é a profundidade. O curinga é a inflação: se o choque do petróleo se provar mais persistente do que o esperado, o freio pode ser mais brusco do que qualquer projeção atual contempla.


Perguntas frequentes

Quando a desaceleração do PIB deve se tornar mais visível?

Os analistas apontam o segundo e o terceiro trimestres de 2026 — ou seja, de julho a setembro — como o período de maior perda de ritmo. O Ministério da Fazenda reconhece essa tendência, mas mantém projeção anual de 2,3%.

O que muda no bolso do brasileiro com a desaceleração?

Crédito mais caro e por mais tempo, menor crescimento da renda real e possível estagnação do consumo de bens duráveis. O emprego deve se manter resiliente a curto prazo, mas contratações devem desacelerar.

Qual é a Selic atual e para onde ela vai até o fim do ano?

Após dois cortes seguidos, a Selic está em 14,5% ao ano. O mercado financeiro projeta que ela encerre 2026 entre 13% e 13,5%, com ritmo de cortes cauteloso condicionado à trajetória da inflação.

Por que o governo prevê crescimento maior do que o mercado?

O Ministério da Fazenda projeta alta de 2,3% do PIB, enquanto o mercado (Focus) espera 1,85% e instituições como Banco Mundial e Ipea estimam 1,6%. A divergência está na avaliação do impacto da política monetária restritiva e no grau de confiança nos estímulos governamentais.

A desaceleração brasileira está relacionada ao cenário externo?

Sim. O FMI revisou o crescimento global de 3,3% para 3,1% em 2026. A guerra no Oriente Médio pressiona o petróleo e a inflação global, reduzindo o espaço para cortes de juros em todo o mundo — e o Brasil, apesar de exportador de commodities, não está imune a esse ambiente de cautela.

Tags:#PIB#Selic#inflação#Banco Central#desaceleração#juros#segundo semestre 2026#economia

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