Política & Mercado

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Desemprego, PIB dos EUA e inflação: o mercado hoje

IBGE revela desemprego de 5,8% no trimestre até abril; PIB dos EUA é revisado para baixo, a 1,6%, com inflação em alta. O que isso muda para o Brasil.

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Daniel Krust
··8 min de leitura
Sede do Banco Central do Brasil em Brasília, símbolo da política monetária e dos juros Selic

Desemprego, PIB dos EUA e inflação: o que o mercado precisa saber hoje

Uma quinta-feira carregada de dados macroeconômicos movimenta os mercados neste 28 de maio de 2026. O Brasil registrou uma leve alta na taxa de desemprego, enquanto os Estados Unidos revelaram que sua economia cresceu menos do que o esperado no início do ano — com a inflação ainda acima da meta. Os dois movimentos se conectam: o que acontece em Washington tem desdobramentos diretos sobre juros, câmbio e atividade por aqui.


Desemprego no Brasil sobe para 5,8% no trimestre até abril

A taxa de desemprego no Brasil ficou em 5,8% no trimestre encerrado em abril, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quinta-feira (28). O número representa uma leve alta em relação ao período anterior — o indicador fica acima do registrado no quarto trimestre de 2025 (5,1%) — mas precisa ser lido com contexto histórico.

A mediana das previsões em pesquisa da Reuters era de que a taxa ficasse em 5,9% no período, o que significa que o resultado veio ligeiramente melhor do que o consenso do mercado — uma discreta surpresa positiva.

Para entender o ritmo da série, vale o comparativo anual: nos três primeiros meses do ano passado, o desemprego tinha marcado 7%. A queda de um ponto percentual em base anual reflete um mercado de trabalho que, apesar de sazonal no início do ano, segue em nível historicamente baixo.

A sazonalidade é o principal fator técnico por trás da alta trimestral. De todos os 10 agrupamentos de atividades apurados pelo IBGE, três tiveram queda: comércio (1,5%, ou menos 287 mil pessoas ocupadas), administração pública (2,3%, ou menos 439 mil pessoas) e serviços domésticos (2,6%, ou menos 148 mil pessoas). Esses segmentos costumam encolher no começo do ano após o pico de contratações do fim de 2025.

O sinal estrutural, porém, segue positivo. Apesar de a taxa de desocupação ter aumentado no primeiro trimestre de 2026 em relação ao último trimestre de 2025, o Brasil vivenciou redução da informalidade. No trimestre encerrado em março, a taxa de informalidade foi de 37,3% da população ocupada, o que equivale a 38,1 milhões de trabalhadores informais. Menos informalidade com desemprego ainda baixo é uma combinação que costuma sustentar consumo das famílias — e, por tabela, a atividade econômica interna.


PIB dos EUA revisado para baixo: 1,6% no 1º trimestre

Do outro lado do Atlântico, o Departamento de Comércio americano trouxe uma surpresa negativa. O Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos cresceu a uma taxa anualizada de 1,6% no primeiro trimestre de 2026, segundo a segunda estimativa do Departamento de Comércio do país, divulgada nesta quinta-feira, 28.

O número é inferior à estimativa de 2% anunciada no mês passado. A economia dos Estados Unidos cresceu menos do que o inicialmente estimado no primeiro trimestre de 2026, após revisões para baixo nos investimentos e no consumo. Os analistas esperavam que a estimativa de crescimento do PIB de 2% permanecesse inalterada, segundo o consenso do MarketWatch.

O dado ficou abaixo da leitura preliminar anterior, após revisão negativa de 0,4 ponto percentual, indicando uma desaceleração mais intensa da atividade econômica norte-americana no início do ano.

Por que houve essa revisão? O documento destacou que o aumento das importações teve peso relevante na revisão para baixo do indicador. Como as importações entram negativamente no cálculo do PIB, a aceleração dessas compras externas acabou reduzindo o resultado consolidado da economia.

O contexto geopolítico pesa diretamente. Os custos de energia dispararam desde o início dos ataques conjuntos de EUA e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro. Os analistas alertaram sobre a dependência da economia dos EUA em relação ao aumento dos investimentos em IA para impulsionar seu crescimento, enquanto o consumo sofre com o impacto da guerra no Oriente Médio sobre os preços da energia.


Inflação americana em alta, Fed em compasso de espera

O cenário de crescimento fraco não veio acompanhado de alívio inflacionário. A taxa de inflação anual nos EUA acelerou para 3,8% em abril de 2026, a mais alta desde maio de 2023, em comparação a 3,3% em março. Os custos de energia saltaram 17,9%, o maior aumento anual desde setembro de 2022, principalmente devido à gasolina (28,4%) e ao óleo combustível (54,3%).

A inflação subjacente — que exclui energia e alimentos — também preocupa. O núcleo subiu 0,4% em abril (ante 0,2% em março), acumulando 2,8% em 12 meses, pressionado por custos resilientes em serviços e habitação. Com o Federal Reserve (Fed) mantendo os juros no patamar restritivo de 3,50% a 3,75% ao ano, o mercado projeta que as taxas permaneçam inalteradas por um longo período.

A equação é a clássica armadilha da estagflação: crescimento abaixo do esperado ao mesmo tempo em que os preços seguem elevados. Com o Fed mantendo os juros no patamar restritivo de 3,50% a 3,75% ao ano, o mercado financeiro projeta que as taxas permaneçam inalteradas por um longo período, possivelmente sem cortes até 2027. Apesar do aumento geral, os mercados já precificam pouca chance de um corte nas taxas de juros até o final de 2026.


O impacto no Brasil: Selic, dólar e projeções

O cenário externo importa diretamente para a equação monetária brasileira. Com o Fed sem espaço para cortar juros, o diferencial de taxas entre Brasil e EUA permanece apertado — reduzindo o incentivo para fluxo de capital para emergentes.

Após dois cortes de 0,25 ponto em março e abril, a Selic se encontra hoje no patamar de 14,5% ao ano. A trajetória de queda continua, mas em ritmo cuidadoso. A XP indica que as "perspectivas inflacionárias pioraram por fatores globais e domésticos", de modo que a "guerra desafia bancos centrais" pelo mundo. A casa revisou para cima sua projeção para a taxa Selic ao final de 2026: de 12% em janeiro para 13,5% no mês passado e, agora em maio, 13,75%.

No câmbio, o Brasil tem surfado uma posição favorável. A XP avalia que o "Brasil segue visto como um vencedor relativo" no contexto do choque do conflito, por ser exportador de commodities diversificadas. "Apesar do aumento da incerteza decorrente do conflito no Oriente Médio, o ambiente global tem se mostrado favorável aos ativos brasileiros. O real segue entre as moedas de melhor desempenho no ano."

No Focus mais recente, o câmbio e o PIB não tiveram aumento nesta divulgação. O crescimento interno do país continuou na estimativa de 1,85%, e a moeda segue estimada para encerrar 2026 em R$ 5,20.


Análise: o que pode acontecer

O dia de hoje concentrou duas leituras que, juntas, definem o tom macro para o segundo semestre de 2026. O desemprego brasileiro levemente acima do mínimo histórico mas abaixo das expectativas é, na prática, um não-evento negativo — o mercado de trabalho segue robusto, e a queda da informalidade sugere que a geração de empregos tem qualidade. O problema real está no exterior.

A revisão do PIB americano para 1,6%, combinada com inflação rodando em 3,8% anual, coloca o Fed em uma posição ingrata: qualquer corte de juros premature arriscaria desancoragem das expectativas inflacionárias; manter os juros elevados por mais tempo sufoca o crescimento. Para o Brasil, isso significa que o ciclo de queda da Selic seguirá lento e dependente de cada dado externo — e que o dólar pode voltar a se valorizar caso o apetite por risco global piore.

Cenário base — desinflação gradual dos EUA, Selic a 13,5% no fim de 2026: O Fed mantém juros estáveis, a inflação americana cede lentamente com a estabilização do petróleo. No Brasil, o Copom continua o ciclo de cortes em ritmo trimestral de 25 pontos-base. O dólar oscila em torno de R$ 5,10–5,25, e a Bolsa precifica crescimento doméstico moderado. É o cenário mais provável dado o atual ritmo dos dados.

Cenário adverso — inflação americana resistente, juros altos por mais tempo: Se a inflação americana não ceder até o 3º trimestre, o Fed pode sinalizar pausa prolongada ou até reversão parcial. O diferencial de juros Brasil-EUA se estreita, há fuga de capital de emergentes, o dólar pressiona o IPCA brasileiro e o Copom interrompe o ciclo. A Selic pode terminar 2026 acima de 14%. Esse cenário ganha probabilidade se o conflito no Oriente Médio se intensificar.

Cenário favorável — resolução do conflito, petróleo recua: Uma desescalada no Oriente Médio derrubaria os preços de energia, aliviaria a inflação americana e abriria espaço para o Fed sinalizar cortes em 2027. No Brasil, o real se fortaleceria, o IPCA recuaria e o Copom poderia acelerar os cortes. Nesse caso, a Selic poderia chegar próximo de 13% ao final do ano.

A leitura mais provável é o cenário base. O curinga é a guerra — único fator exógeno capaz de mudar o roteiro de forma abrupta e imprevisível.


Perguntas frequentes

O que é o desemprego de 5,8% divulgado hoje pelo IBGE?

É a taxa de desocupação medida pela PNAD Contínua no trimestre móvel encerrado em abril de 2026. Ela representa a proporção de pessoas que estão procurando trabalho ativamente mas não encontraram emprego nesse período.

Por que o desemprego sobe mesmo com o mercado de trabalho forte?

A alta pontual reflete sazonalidade: comércio, administração pública e serviços domésticos costumam demitir no começo do ano após o pico de fim de ano. Em base anual, a taxa caiu de 7% para 5,8%, o que indica mercado de trabalho em melhora estrutural.

Como a revisão do PIB dos EUA afeta o Brasil?

Um crescimento americano mais fraco, combinado com inflação alta, impede o Federal Reserve de cortar juros. Isso reduz o fluxo de capital para emergentes como o Brasil, pressiona o dólar para cima e limita a velocidade com que o Banco Central brasileiro pode reduzir a Selic.

Qual é a Selic hoje e o que se espera para o final de 2026?

Após dois cortes de 0,25 ponto percentual em março e abril, a Selic está em 14,5% ao ano. O mercado financeiro, segundo o Focus, projeta a taxa encerrando 2026 entre 13,25% e 13,75%, dependendo do cenário externo e da trajetória da inflação doméstica.

O dólar vai subir com os dados de hoje?

O real tem mostrado resiliência, com projeções do mercado apontando para R$ 5,20 ao final do ano. O Brasil é visto como "vencedor relativo" no contexto geopolítico atual por sua condição de exportador de commodities. Mas uma piora no cenário externo — especialmente no conflito no Oriente Médio — pode pressionar o câmbio para cima.

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