Dívida pública bruta sobe a 81,1% do PIB em maio
Banco Central divulgou nesta terça (30/6) que a DBGG atingiu R$ 10,6 trilhões, maior nível em 5 anos. Déficit do setor público foi de R$ 56,1 bi, acima do esperado.

Dívida pública bruta sobe a 81,1% do PIB em maio e atinge maior patamar em cinco anos
O Brasil encerra o mês de maio com um número que deveria ocupar o centro do debate econômico: a dívida pública bruta chegou a 81,1% do Produto Interno Bruto (PIB), o maior nível desde maio de 2021. O resultado, divulgado pelo Banco Central nesta terça-feira (30/6), veio acima do esperado pelo mercado e reacende o alerta sobre a sustentabilidade das contas públicas.
O que dizem os números do Banco Central
A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) — que compreende o endividamento do governo federal, do INSS e dos governos estaduais e municipais — passou de 80,2% do PIB em abril para 81,1% do PIB em maio, somando R$ 10,6 trilhões, conforme dados divulgados pelo Banco Central nesta terça-feira (30/6).
Esse dado representa um aumento de 0,9 ponto percentual do PIB em relação ao mês anterior, e, de acordo com o BC, decorreu principalmente do aumento dos juros nominais, que acabam subindo à medida que a deterioração das contas públicas fica mais evidente.
O resultado representa o maior patamar em cinco anos, ou seja, é o maior nível para a dívida pública desde maio de 2021, quando somava 81,4% do PIB.
As expectativas em pesquisa da Reuters eram de 80,7% para a dívida bruta e de 68,1% para a líquida — o resultado, portanto, superou as projeções em 0,4 ponto percentual. A dívida líquida do setor público foi a 67,9%.
Pela métrica do FMI, o número é ainda mais alto
O indicador convencional (81,1%) já é elevado, mas existe uma segunda leitura, mais abrangente, que revela uma situação ainda mais grave. Pelo conceito do Fundo Monetário Internacional (FMI), que contabiliza os títulos do Tesouro Nacional na carteira do BC, o dado da dívida pública bruta chegou a R$ 12,3 trilhões, patamar recorde que representa 94,3% do PIB.
Esse patamar situa o Brasil acima da média observada em outras nações emergentes, em países da América do Sul e na Zona do Euro. Para uma economia emergente, é um nível que eleva o custo de financiamento e estreita a margem de manobra em momentos de crise.
Déficit primário pior do que o esperado
O problema não é só o estoque da dívida — o fluxo também preocupa. O déficit primário do setor público consolidado — que inclui governo federal, governos regionais e estatais federais — registrou um salto de 66,5% na comparação com maio de 2025, passando de R$ 33,7 bilhões para R$ 56,1 bilhões neste ano.
O setor público consolidado registrou um déficit primário de R$ 56,131 bilhões, contra expectativa de economistas consultados em pesquisa da Reuters de um saldo negativo de R$ 53,5 bilhões. As expectativas do Itaú Unibanco, por exemplo, eram de um rombo fiscal de R$ 54,9 bilhões.
O desempenho mostra que o governo central teve déficit de R$ 55,169 bilhões, enquanto estados e municípios registraram rombo de R$ 1,236 bilhão e as estatais tiveram superávit de R$ 273 milhões.
No acumulado, o cenário também se deteriora. No acumulado de 12 meses, o déficit primário atingiu R$ 149 bilhões, equivalente a 1,14% do PIB.
O peso dos juros: R$ 107,5 bilhões em um único mês
Aqui está o nó gordiano das contas públicas brasileiras. O déficit primário, por mais preocupante que seja, é apenas parte da história. Os juros sobre a dívida fazem o buraco crescer em velocidade acelerada.
Em maio, os juros nominais somaram R$ 107,5 bilhões, acima dos R$ 92,1 bilhões registrados no mesmo período do ano passado. O Banco Central atribui essa alta ao crescimento do estoque da dívida, que amplia o valor dos encargos financeiros pagos pelo setor público.
Nos últimos 12 meses, a despesa com juros alcançou R$ 1,11 trilhão, equivalente a 8,48% do PIB. Para contextualizar: isso é mais do que o Brasil gasta com saúde e educação juntos num ano.
O déficit nominal — indicador que reúne o resultado primário e as despesas financeiras — foi de R$ 163,7 bilhões em maio. No acumulado de 12 meses, atingiu R$ 1,26 trilhão, ou 9,62% do PIB.
O arcabouço fiscal e a meta do governo
O governo trabalha com metas formais. O governo trabalha com uma meta fiscal que prevê um saldo negativo de 0,25% do PIB para este ano, o que representa aproximadamente R$ 34,3 bilhões. Pelo desenho do arcabouço fiscal aprovado em 2023, existe uma banda de tolerância de 0,25 ponto percentual, e o objetivo é considerado formalmente cumprido caso o resultado final fique entre o saldo zero e um superávit de R$ 68,6 bilhões. Com o déficit acumulado em 12 meses já em 1,14% do PIB, cumprir essa meta até dezembro exige uma virada expressiva no segundo semestre.
Desde o início do ano, a dívida bruta acumulou alta de 2,4 pontos percentuais do PIB. Segundo o Banco Central, os juros nominais responderam por 4,2 pontos desse avanço, enquanto o crescimento da economia e a valorização cambial ajudaram a conter parcialmente a expansão do indicador.
Ou seja: mesmo com o crescimento econômico atuando como amortecedor, a pressão dos juros sobre a dívida é mais do que suficiente para anular esse efeito positivo.
Análise: o que pode acontecer
O dado de hoje não é um número isolado — é a consolidação de uma tendência que já vinha sendo sinalizada em relatórios do Banco Central, da Instituição Fiscal Independente (IFI) e de casas de análise. O ponto central é que o Brasil tem um problema estrutural na equação fiscal: os juros crescem mais rápido do que a capacidade de geração de superávit primário. Enquanto a Selic permanecer em patamar restritivo e o déficit primário não for revertido de forma consistente, a trajetória da dívida como percentual do PIB tende a continuar subindo. O crescimento do PIB ajuda, mas não resolve sozinho — como mostram os próprios dados do BC.
Cenário base — deterioração controlada: O governo não consegue zerar o déficit primário em 2026, mas o crescimento econômico (o BC projeta 2% para o ano) amortece parte da piora. A dívida bruta fecha 2026 entre 82% e 83% do PIB, dentro de um corredor desconfortável, mas sem ruptura. Projeções da IFI indicavam que a DBGG deve terminar o ano em cerca de 82,5% do PIB. Esse é o cenário mais provável no curtíssimo prazo, dado o ritmo atual.
Cenário de pressão adicional — Selic e câmbio: Se a inflação — o IPCA acumulado em 12 meses ficou em 4,72%, já acima do teto da meta — forçar o Banco Central a segurar os juros por mais tempo do que o mercado espera, o custo de rolagem da dívida acelera. Cada 0,5 ponto percentual de Selic a mais representa bilhões adicionais em encargos financeiros. Nesse cenário, a dívida pode se aproximar de 84% do PIB ainda em 2026, pressionando prêmios de risco e o dólar.
Cenário de consolidação fiscal — o mais improvável no curto prazo: Uma reversão significativa dependeria de cortes de gastos expressivos ou de um boom de receita. Analistas estimam que, sem cortes robustos de despesas para sustentar o arcabouço fiscal, a dívida nacional pode alcançar 100% do PIB até 2035 pelo critério interno. Nesse cenário, a estabilização da dívida/PIB só seria alcançada com reformas estruturais de médio prazo — algo que, no atual ambiente político, não aparece no horizonte imediato.
A aposta analítica da redação: O cenário base de deterioração gradual é o mais provável. O curinga é o comportamento da Selic no segundo semestre: se o Copom iniciar um ciclo de cortes mais agressivo — o que os dados de inflação acima da meta tornam improvável — os encargos da dívida recuariam. Por ora, os números apontam para uma dívida pública que continuará crescendo como proporção do PIB ao menos até o final de 2026.
Perguntas frequentes
O que é a dívida pública bruta do governo geral (DBGG)?
É o total de dívidas do governo federal, do INSS e dos governos estaduais e municipais, sem descontar os ativos financeiros que o setor público possui. É o indicador mais usado internacionalmente para comparar o endividamento entre países.
Por que a dívida subiu mais do que o esperado em maio de 2026?
O principal fator foi o impacto dos juros nominais, que responderam por 0,9 ponto percentual do avanço mensal. Também contribuíram as emissões líquidas de títulos públicos e a leve desvalorização cambial. O déficit primário de R$ 56,1 bilhões — acima das projeções de R$ 53,5 bilhões — agravou ainda mais o resultado.
Qual é o impacto disso no bolso do brasileiro?
Quanto maior a dívida e o custo de financiá-la, menor é o espaço do governo para investir em saúde, educação e infraestrutura. Além disso, juros elevados encarecem o crédito para famílias e empresas, freiam o crescimento econômico e pressionam o câmbio — o que por sua vez alimenta a inflação.
A meta fiscal de 2026 ainda pode ser cumprida?
Com o déficit primário acumulado em 12 meses já em 1,14% do PIB e a meta fixada em déficit máximo de 0,25% do PIB, o desafio é expressivo. O governo teria de registrar superávits relevantes no segundo semestre para reverter o quadro dentro da banda de tolerância do arcabouço fiscal.
Qual é a Selic atual e qual seu papel nesse cenário?
O Boletim Focus divulgado pelo Banco Central em 29 de junho de 2026 manteve a projeção para a taxa Selic em 14% ao ano. Com a Selic nesse patamar, os encargos sobre o estoque crescente da dívida se acumulam rapidamente — foi justamente o custo dos juros nominais de R$ 107,5 bilhões em maio o principal vetor da piora do indicador.
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