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Favela do Moinho: União cede terreno a SP e define destino das famílias

Governo federal assinou cessão gratuita do terreno ao Estado de SP em 3 de julho. Mais de 627 famílias têm moradia definitiva; debate sobre permanência no centro divide especialistas.

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Daniel Krust
··9 min de leitura
Assinatura do contrato de cessão do terreno da Favela do Moinho ao governo paulista, com área desocupada no centro de São Paulo ao fundo

Favela do Moinho: União finaliza cessão do terreno a SP e define destino das famílias

Depois de mais de dois anos de negociações tensas, o governo federal assinou na sexta-feira (3/7) o contrato de cessão gratuita do terreno da Favela do Moinho ao Estado de São Paulo. O ato marca o fim formal de uma disputa entre Brasília e o Palácio dos Bandeirantes — mas deixa perguntas abertas sobre o destino real das famílias removidas.


O que foi assinado e o que muda a partir de agora

O governo do Estado de São Paulo assinou, nesta sexta-feira (3/7), a posse do terreno onde ficava a Favela do Moinho, na região central de São Paulo, quase um ano depois de uma disputa política travada com o governo federal após um acordo que previa moradia gratuita para os moradores da comunidade.

O contrato de cessão não onerosa foi assinado com a Secretaria de Patrimônio da União (SPU), encerrando negociações que se estendiam desde novembro de 2023.

O terreno, localizado no bairro Campos Elíseos, possui 61,3 mil metros quadrados e atravessa o Viaduto Engenheiro Orlando Murgel. No local, o governo estadual pretende erguer o Parque do Moinho. A proposta inclui áreas verdes, pista de skate, mobiliário urbano, paisagismo, além de espaços coletivos e rotas destinadas a pedestres e ciclistas.

O espaço terá uma localização estratégica, atravessando o Viaduto Engenheiro Orlando Murgel e margeando as faixas operacionais das linhas 7 – Rubi, 8 – Diamante e 11 – Coral da malha ferroviária metropolitana.

O projeto tem escala bem maior do que o parque em si. A obra de R$ 6,1 bilhões para a nova sede do governo de São Paulo, do qual o espaço onde está a favela é um pequeno pedaço, prevê também a construção de áreas comerciais, uma estação de trem, novos edifícios e estações de recarga de carros elétricos.


O processo de remoção: linha do tempo e números oficiais

A área, no centro da capital paulista, abrigou cerca de 850 famílias antes das remoções, iniciadas em abril de 2025. Um ano depois do início das remoções, quase todas as construções no local já foram demolidas.

A CDHU iniciou o diálogo com a comunidade em 2024, com reuniões com lideranças e cadastramento de todas as moradias. Foram mais de dez encontros coletivos, com participação da Defensoria Pública, advogados da comunidade, SPU e Prefeitura de São Paulo.

Os números divulgados pelos dois lados divergem em nuances importantes:

  • Versão do governo estadual: quase 950 mudanças foram realizadas, sendo que mais de 627 famílias já estão em moradias definitivas. As demais recebem auxílio-moradia de R$ 1,2 mil custeado pelo Estado até que seus imóveis fiquem prontos. Nove famílias ainda permanecem no local, aguardando trâmites burocráticos, sob responsabilidade da Caixa Econômica Federal.

  • Versão do governo federal (abril/2026): até o dia 10 de abril de 2026, 736 famílias da Favela do Moinho contrataram ou estão em processo de contratação para adquirir o imóvel, e outras 91 estão com "pendências de enquadramento".

  • Dados independentes (Intercept/CDHU via LAI, março/2026): em março de 2026, 791 famílias haviam sido removidas da Favela do Moinho, enquanto 63 famílias permaneceram em meio aos escombros, conforme dados da CDHU obtidos pelo Intercept.

Na cerimônia de assinatura, a ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, fez um balanço positivo: "Hoje temos 84% das famílias que estavam lá com suas casas permanentes contratadas, ainda que não estejam prontas, e as 16% que faltam também terão suas moradias garantidas."


O acordo financeiro: quanto cada família recebe

O modelo de subsídio foi construído em conjunto pelos dois governos. Cada núcleo familiar tem direito a um subsídio de até R$ 250 mil para a aquisição direta de imóveis prontos ou em fase final de construção por meio da modalidade de Compra Assistida do Minha Casa, Minha Vida.

Do subsídio total de até R$ 250 mil para a aquisição de imóveis, R$ 180 mil são provenientes do Governo Federal e R$ 70 mil do governo estadual, por meio do programa habitacional Casa Paulista. Assim, não há necessidade de financiamento ou contrapartida financeira por parte das famílias.

Os moradores podem optar por imóveis novos ou usados, em qualquer cidade do estado de São Paulo. O pagamento é feito diretamente ao vendedor do imóvel.

A proposta contempla famílias com renda até a Faixa 2 do Minha Casa, Minha Vida, que corresponde a uma renda familiar de até R$ 4,7 mil mensais, incluindo beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC).


Os quatro imóveis e a complexidade do projeto

O processo de aquisição da área total é mais complexo do que o ato de sexta-feira sugere. O processo de aquisição das áreas envolve quatro imóveis distintos. O primeiro e maior, onde ficava a Favela do Moinho, já teve a posse transferida. Outro imóvel, da CEAGESP, está em fase de desapropriação pela CDHU, com autorização para trabalhos iniciais. Os dois imóveis restantes, de propriedade privada, também estão em processo de desapropriação, com depósito inicial em juízo já realizado.

Futuramente, a expectativa é de que uma nova estação de trem seja instalada no terreno ao lado — que atualmente pertence à Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) e proprietário particular e está em processo de transferência para o estado de São Paulo.


A disputa política e as críticas ao processo

O caminho até a assinatura foi marcado por confrontos públicos. O Governo Federal chegou a notificar o governo de São Paulo para paralisar o processo de transferência de área, afirmando que o uso violento de força policial para retirar famílias do local contrariava condições negociadas para a cessão do terreno federal ao governo paulista.

De um lado, Lula chegou a dizer que o subsídio integral de moradias no valor de até R$ 250 mil só seria possível por causa da costura feita pelo governo federal e criticou a atuação da Polícia Militar na comunidade. Do outro, a gestão Tarcísio criticou a suposta demora e burocracia do governo federal para liberar a verba para o programa.

Pesquisadoras da FAUUSP, em análise publicada pelo Intercept em abril de 2026, apontam que o resultado do processo deixou a desejar em termos de manutenção dos moradores no centro. A territorialização da moradia das famílias após a remoção mostra a sua dispersão para bairros periféricos em São Paulo, para outros municípios da região metropolitana da capital paulista e até para cidades mais distantes no litoral do estado. Tal dispersão mostra as consequências desse tipo de política que elimina majoritariamente a população negra e empobrecida dos centros urbanos.

Menos de 10% das famílias têm moradia definitiva no centro. A maioria das famílias que permaneceram no centro e centro expandido o fizeram através do aluguel temporário.

Ao menos três famílias ainda tentam provar, junto ao governo estadual, que residiam no local antes do acordo de reassentamento.


Análise: o que pode acontecer

A cessão formalizada em 3 de julho encerra o capítulo mais delicado — a disputa pela posse do terreno —, mas não resolve os nós que ficaram pelo caminho. O fato de 84% das moradias estarem "contratadas" não significa que estão entregues: contratação e chave na mão são etapas bem diferentes em qualquer programa habitacional brasileiro. O risco real é o de famílias presas em auxílio-moradia de R$ 1.200 por meses ou anos, enquanto aguardam obras que dependem de um sistema de crédito habitacional historicamente lento. O acordo financeiro é robusto no papel — R$ 250 mil por família, sem contrapartida — mas a execução será o verdadeiro teste.

Há também uma dimensão política evidente. O fim da Favela do Moinho é uma das principais apostas de Tarcísio, do Republicanos, para a reeleição, e a assinatura ocorre em ano eleitoral. Isso não invalida o mérito do projeto, mas é um dado do contexto que o leitor precisa ter em mente ao avaliar a narrativa oficial de "missão cumprida".

Cenário base — execução gradual com atrasos: As famílias com contratos assinados recebem seus imóveis ao longo de 2026 e 2027 conforme o mercado entrega as unidades. O auxílio-moradia cobre o intervalo, mas para parte das famílias o período de transição se estende além do previsto. O parque começa obras em 2027, após conclusão das desapropriações dos imóveis restantes. Este é o cenário mais provável, dado o histórico de execução de programas habitacionais no Brasil.

Cenário positivo — aceleração por pressão política eleitoral: Com as eleições de outubro de 2026 no horizonte, tanto o governo estadual quanto o federal têm incentivo para acelerar entregas e mostrar resultados concretos. Nesse caso, o número de famílias com moradia definitiva pode avançar significativamente até o fim do ano.

Cenário de risco — judicialização e impugnações: As três famílias que disputam enquadramento no programa, somadas a possíveis contestações jurídicas sobre o processo de remoção e sobre a desapropriação dos imóveis privados e da Ceagesp, podem criar liminares que emperrem as obras do parque. Organizações como o LabCidade da FAUUSP têm documentado o processo e podem embasar ações na Defensoria Pública.

A aposta analítica da redação: o cenário base é o mais provável. A cessão foi formalizada, o dinheiro está comprometido e o projeto tem relevância política alta demais para ser abandonado. O curinga é a velocidade da Caixa Econômica Federal para processar os contratos restantes — historicamente o elo mais lento da corrente.


Perguntas frequentes

O que é a cessão não onerosa assinada em julho de 2026?

É a transferência gratuita do terreno da União (governo federal) para o Estado de São Paulo, sem pagamento pela área. O contrato foi assinado pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU) e o governo paulista em 3 de julho de 2026, encerrando negociações iniciadas em 2023.

Quanto cada família recebe para a nova moradia?

Cada família tem direito a um subsídio total de até R$ 250 mil, sem contrapartida financeira própria. Desse valor, R$ 180 mil vêm do governo federal (via Minha Casa, Minha Vida — Compra Assistida) e R$ 70 mil do governo estadual (Casa Paulista). Os moradores podem escolher imóveis novos ou usados em qualquer município paulista.

Todas as famílias já têm moradia garantida?

Não completamente. Segundo a ministra Esther Dweck, 84% das famílias têm moradia permanente contratada. Contudo, "contratada" não significa entregue: parte ainda aguarda conclusão das obras. As restantes recebem auxílio-moradia de R$ 1.200 por mês durante o período de espera.

O que será construído no local da Favela do Moinho?

O governo de São Paulo planeja o Parque do Moinho, com 61,3 mil m² de áreas verdes, pista de skate, espaços de convivência e rotas para pedestres e ciclistas. O projeto faz parte de uma intervenção urbana maior no centro de SP, que inclui a futura Estação Bom Retiro da CPTM e um complexo administrativo estadual avaliado em R$ 6,1 bilhões.

As famílias conseguiram permanecer no centro de São Paulo?

Em sua maioria, não. Dados do CDHU obtidos pelo Intercept Brasil via Lei de Acesso à Informação mostram que, até março de 2026, menos de 10% das famílias removidas tinham moradia definitiva no centro, e a maioria foi deslocada para bairros periféricos ou municípios vizinhos.

Tags:#Habitação#São Paulo#Política Urbana#Favela do Moinho#Parque do Moinho#Governo Federal#CDHU

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