Selic 13,25% em 2026: Poupança, Financiamento e IPCA
Boletim Focus de 18/05 elevou a projeção da Selic de 13% para 13,25% ao fim de 2026. IPCA sobe pela décima semana seguida. Entenda o que está por trás da revisão e os cenários para os juros.

Focus: Selic sobe para 13,25% em 2026 — e o que muda
O mercado financeiro aumentou, mais uma vez, a sua aposta de que os juros vão cair menos do que o esperado neste ano. O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (18) pelo Banco Central elevou de 13% para 13,25% ao ano a projeção para a Selic em 2026. A revisão parece pequena em termos absolutos, mas o sinal que ela carrega é inequívoco: o ciclo de corte de juros está mais curto, mais lento e mais incerto do que se imaginava no início do ano.
O que diz o Focus desta semana
A revisão veio acompanhada de nova alta marginal na estimativa para o IPCA, a inflação oficial do país, que passou de 4,91% para 4,92% neste ano, reforçando um cenário de juros elevados por mais tempo diante da resistência dos preços.
Esse número importa por uma razão objetiva: o IPCA projetado segue acima do teto da meta de inflação, de 4,50%, mostrando que as expectativas continuam deterioradas mesmo após as sinalizações mais duras da autoridade monetária. Para piorar, considerando apenas as 53 estimativas atualizadas nos últimos cinco dias úteis — mais sensíveis a mudanças recentes — a projeção para a inflação de 2026 permaneceu ainda mais elevada, em 5,04%.
É o décimo avanço consecutivo do IPCA no Focus. Enquanto a projeção para o IPCA de 2026 avançou pela décima semana consecutiva, a mediana para a Selic no fim do próximo ano voltou a subir. Essa persistência é o dado central da semana — não se trata de um ruído pontual, mas de uma tendência de revisão sistemática que vem se consolidando há quase três meses.
O pano de fundo: Copom, Oriente Médio e desancoragem
Para entender o que está acontecendo, é preciso olhar para o contexto que empurra as expectativas. O Copom já promoveu dois cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual em 2026, levando a Selic de 15% para 14,50% ao ano. Ainda assim, a autoridade monetária deixou claro que a magnitude e a duração do ciclo dependerão da evolução do cenário externo e dos impactos inflacionários.
O "cenário externo" a que o BC se refere tem um endereço específico: com a Guerra no Oriente Médio, o BC afirmou que a magnitude e o "ciclo de calibração" da Selic serão determinados "ao longo do tempo", à medida que novas informações forem incorporadas às análises. O conflito pressiona preços de energia globalmente, e essa pressão se transmite ao IPCA por vias conhecidas — combustíveis, transporte, alimentos.
Há ainda um fator doméstico preocupante. Pela primeira vez, a desancoragem das expectativas de inflação chegou a 2028, além do horizonte relevante para avaliação da política monetária. Quando o mercado começa a duvidar da trajetória de preços para além de dois anos, o Banco Central perde graus de liberdade: cortar juros com expectativas desancoradas é uma aposta arriscada.
Os outros indicadores do Focus
Além da Selic, o boletim desta semana trouxe alguns movimentos relevantes nos demais indicadores:
- PIB 2026: a previsão para o Produto Interno Bruto de 2026 foi mantida em 1,85%.
- Câmbio 2026: o Boletim Focus manteve a projeção do dólar em R$ 5,20 ao fim de 2026.
- Selic 2027: para 2027 e 2028, a mediana das projeções do boletim Focus segue em 11,25% e 10,00%, respectivamente.
- IPCA 2027: para 2027, a estimativa permaneceu em 4% pela terceira semana consecutiva.
- IGP-M 2026: no caso do IGP-M, a mediana para 2026 avançou de 5,60% para 5,63%, registrando a 11ª alta consecutiva.
A combinação de PIB estável com Selic revisada para cima revela um quadro delicado. Em geral, juros mais elevados tendem a limitar o avanço da atividade, porque reduzem o consumo financiado e encarecem investimentos — a economia segue crescendo, mas sob condições financeiras restritivas, com menor espaço para expansão acelerada do consumo e dos investimentos.
O que isso significa no bolso
Para quem tem dívidas, financia imóvel, usa cartão de crédito ou mantém capital de giro: juros elevados encarecem financiamentos, empréstimos e capital de giro. Para as famílias, isso pesa sobre o consumo de bens duráveis, o custo de dívidas e o acesso a crédito. Para as empresas, aumenta despesas financeiras, reduz a atratividade de novos projetos e pressiona companhias mais endividadas.
O lado positivo fica com o investidor em renda fixa. Uma Selic mais alta tende a favorecer aplicações de renda fixa, especialmente títulos pós-fixados e ativos atrelados à taxa básica. Ao mesmo tempo, pode reduzir o apetite por ativos de maior risco, como ações de empresas mais dependentes do ciclo doméstico.
A próxima reunião do Copom
A próxima reunião do Copom (279ª) está agendada para os dias 16 e 17 de junho de 2026. O que o mercado espera para ela está longe de ser consenso.
Economistas do ASA mantêm a projeção de mais um corte de 0,25 ponto percentual na reunião de junho, com Selic de 13,25% ao final de 2026, mas com risco de terminar acima disso. Já a XP Investimentos trabalha com um cenário ligeiramente diferente: a projeção ainda inclui dois cortes de 0,50 ponto percentual nas reuniões de junho e agosto, mas esse cenário está "se tornando cada vez menos provável" — por enquanto, a XP espera Selic em 13,5% ao fim de 2026.
O quadro é de incerteza real. Na ata da reunião de março, o Copom deixou de indicar se continuará a cortar os juros. Isso retira do mercado a âncora de forward guidance e amplia a volatilidade nas apostas de curto prazo.
Análise: o que pode acontecer
A revisão desta semana não é apenas um ajuste técnico. Ela sinaliza que o mercado acumulou evidências suficientes para deslocar o ponto de chegada do ciclo de afrouxamento monetário — e fez isso de forma gradual, semana a semana, durante dez rodadas consecutivas no IPCA. Ignorar essa tendência seria ingenuidade analítica.
O problema central não é a Selic em si, mas a desinflação que não aconteceu no ritmo esperado. O BC iniciou o ciclo de cortes com a premissa de que a inflação convergeria para perto da meta ao longo de 2026 — essa premissa está sendo testada semana a semana pelos dados. O Banco Central terá menor espaço para o afrouxamento monetário pós-conflito — o ciclo de cortes de juros tende a ser menor do que o esperado antes do conflito.
Cenário base (mais provável): O Copom corta mais 0,25 ponto percentual em junho, levando a Selic para 14,25%. O ciclo prossegue de forma gradual e pausada ao longo do segundo semestre, encerrando 2026 entre 13% e 13,25% ao ano — exatamente o que o Focus já precifica. O gatilho para esse cenário é a continuidade do conflito no Oriente Médio sem escalada adicional, mantendo o IPCA pressionado, mas sem ruptura.
Cenário de pausa (risco relevante): Se os dados de inflação de maio e junho surpreenderem para cima — especialmente combustíveis e alimentos —, o Copom pode interromper o ciclo de cortes em junho ou agosto, deixando a Selic parada por um ou dois encontros. Nesse caso, a projeção do Focus para 13,25% seria insuficiente, e o mercado passaria a precificar fechamento de ano acima de 13,5%. A economista-chefe do Inter projeta cortes de 0,25 ponto e Selic em 12,75% no final do ano, mas adverte: "o risco fiscal ainda é maior que o risco da alta do petróleo, e uma pausa pode ser necessária se a atividade não desacelerar".
Cenário otimista (menos provável): Uma desescalada rápida do conflito no Oriente Médio, com recuo nos preços do petróleo e reancoragem das expectativas de inflação, abriria espaço para que o BC acelerasse os cortes no segundo semestre. A Selic poderia fechar 2026 mais próxima de 12,75% ou até abaixo. A XP Investimentos, que mantém estimativa de crescimento de PIB de 2,0% com viés de alta, reconhece "as consequências adversas do conflito do Oriente Médio na atividade econômica", mas aposta que "medidas adicionais de estímulo à renda e ao crédito devem sustentar a demanda doméstica".
A aposta da redação: O cenário base é o mais provável. A inércia inflacionária acumulada em dez semanas consecutivas, combinada com a postura cautelosa explicitada pelo Copom e a ausência de forward guidance para junho, aponta para um ciclo de corte mais curto e mais lento do que o imaginado no início de 2026. O curinga permanece o Oriente Médio — qualquer desescalada expressiva muda o cálculo rapidamente.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que é o Boletim Focus?
O Boletim Focus é um relatório semanal divulgado pelo Banco Central do Brasil que consolida as projeções de mais de cem instituições financeiras e consultorias para os principais indicadores da economia — Selic, IPCA, PIB, câmbio e outros. É uma das principais referências do mercado para antecipar decisões de política monetária.
Por que o IPCA acima de 4,5% é um problema?
Porque 4,5% é o teto do intervalo de tolerância da meta de inflação brasileira, definida pelo Conselho Monetário Nacional em 3% com margem de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Com o IPCA projetado em 4,92% para 2026, as expectativas estão acima do teto, o que limita a capacidade do Banco Central de cortar juros sem arriscar perder credibilidade no controle da inflação.
Quando o Copom decide a próxima taxa Selic?
A próxima reunião do Copom está marcada para os dias 16 e 17 de junho de 2026. A Selic atual está em 14,50% ao ano, após dois cortes de 0,25 ponto percentual realizados em 2026. O mercado majoritariamente aposta em um novo corte de 0,25 ponto percentual nessa reunião, mas o cenário segue incerto diante da pressão inflacionária e do conflito no Oriente Médio.
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