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Guiana e o boom do petróleo: por que o Brasil deveria ser o parceiro número 1

A Guiana virou o país que mais cresceu no mundo nos últimos anos graças ao offshore, mas 41% da população ainda é pobre. Analistas dizem que o Brasil perde uma janela estratégica.

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Daniel Krust
··8 min de leitura
Plataforma FPSO operando no offshore da Guiana, bacia Guiana-Suriname, com costa tropical ao fundo — petróleo per capita e boom econômico

Guiana e o boom do petróleo: por que o Brasil deveria ser o parceiro número 1

Um país de 800 mil habitantes que cresceu mais do que qualquer outro no mundo. Uma riqueza que explode nos números do PIB, mas não chega às casas do povo. E um vizinho enorme — o Brasil — que, segundo especialistas, ainda não aproveitou a janela geopolítica que se abriu ao lado.

Esse é o cenário que envolve a Guiana em 2026, e o debate sobre o papel do Brasil nessa equação ganhou força nesta semana.


De economia agrícola a maior produtor per capita do mundo

A virada da Guiana tem data: 2015, quando a ExxonMobil e seus parceiros descobriram grandes reservas no Bloco Stabroek, a cerca de 193 km da costa. A produção comercial só começou em 2019, mas o ritmo de expansão foi avassalador.

Com cerca de 800 mil habitantes, a Guiana tornou-se o maior produtor de petróleo per capita do mundo, segundo relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), citado pela Bloomberg Línea.

Nos últimos dez anos, o PIB do país cresceu cerca de seis vezes, sustentado principalmente pela exploração de petróleo offshore na Bacia do Stabroek. Essa expansão foi tão expressiva que o país chegou a registrar médias anuais superiores a 40% em determinados períodos — um ritmo acima de muitas economias maiores.

Os números mais recentes confirmam essa trajetória: o crescimento do PIB foi de 63,3% em 2022, 33,8% em 2023, 43,8% em 2024 e 19,3% em 2025. Para 2026, a Guiana espera ver seu PIB crescer 16,2%, com a economia não relacionada ao petróleo avançando 10,8%.

No campo produtivo, a Guiana atingiu uma produção de 900 mil barris por dia em novembro, com projeções de ultrapassar 1 milhão de barris por dia em 2027. Mais adiante, o país prevê elevar a produção para 1,5 milhão de barris por dia em 2029, com a entrada em operação de três novos projetos.


O crescimento que não chegou às pessoas

Aqui está o nó do modelo guianense — e é onde a análise precisa ser honesta.

"Cerca de 41% da população continua vivendo abaixo da linha da pobreza na Guiana, apesar de a renda per capita ter aumentado excepcionalmente", explica Marcelo Simas, professor de geopolítica das energias na Fundação Getulio Vargas (FGV) e na UFRJ.

Em 2024, o petróleo representava 75% do PIB guianense, contra uma participação praticamente inexistente antes do início do boom petrolífero. Essa concentração num único setor é exatamente o que economistas chamam de "maldição do petróleo" ou "doença holandesa".

Críticos acusam o país de desperdiçar sua liderança climática ao investir em combustíveis fósseis, especialmente dada a enorme vulnerabilidade da Guiana às mudanças climáticas — a elevação do nível do mar pode afetar a capital Georgetown até 2030, de acordo com uma avaliação da organização Climate Tracker.

Há também a questão dos royalties. Os royalties recebidos pelo Estado giram em torno de 2%. Para efeito de comparação, no Brasil a cota é de cerca de 10%. O percentual evidencia o poder exercido pela ExxonMobil, empresa norte-americana que explora o petróleo na Guiana e fica com a maior fatia da chamada "renda do petróleo".

A solução apontada por especialistas tem precedente histórico. Segundo o professor Simas, "a única forma de tomar vacina contra isso é criar um fundo soberano e enviar o dinheiro desses recursos para o exterior, ficando apenas com o rendimento" — é a forma que muitos países adotaram para evitar a maldição do petróleo.


Por que o Brasil deveria ser o "parceiro número 1"

É aqui que a tese ganha força estratégica. Daniel Cavagnari, economista e coordenador dos cursos de gestão financeira do Centro Universitário Internacional Uninter, afirma que os países latino-americanos já deveriam começar a se movimentar para costurar parcerias com a Guiana.

Entre eles, o especialista destaca o Brasil, país que pode oferecer à Guiana tecnologia, experiência de exploração e de refino, além de "toda a infraestrutura possível" para auxiliá-los.

O argumento tem três pilares:

  • Proximidade geográfica: a Guiana faz fronteira direta com o Brasil, o que reduz custos logísticos e facilita cooperação em infraestrutura.
  • Capacidade técnica: o crescimento robusto guianense mostra que não se pode prescindir da oportunidade de extração de petróleo nessa região — e a Petrobras tem larga expertise na exploração em águas ultraprofundas.
  • Tipo de petróleo: a qualidade do petróleo guianense é difícil de substituir — e o Brasil tem demanda específica por esse tipo de óleo que os guianenses produzem.

O Brasil também tem interesse direto no que acontece ali do lado. A Margem Equatorial brasileira possui potencial petrolífero relevante, ainda mais considerando as descobertas feitas em regiões próximas, como Guiana, Guiana Francesa e Suriname. As características do óleo e a estimativa dos volumes existentes despertam interesse não só da indústria brasileira, como também do mercado internacional.

O Plano de Negócios da Petrobras para 2026-2030 já sinaliza essa direção: o documento prevê um investimento de US$ 2,5 bilhões na Margem Equatorial nos próximos cinco anos e a perfuração de 15 novos poços.


América do Sul: nova fronteira global do petróleo

O contexto regional amplifica a aposta. De acordo com a Administração de Informação Energética dos EUA (EIA), Brasil, Guiana e Argentina deverão ser os principais impulsionadores do crescimento da oferta de petróleo fora da OPEP em 2026, respondendo por metade do aumento previsto para o ano.

Esses três países podem liderar o crescimento petrolífero sul-americano com mais de 700 mil barris diários adicionais em 2026, superando a Venezuela.

A combinação entre expansão da Guiana, avanço do pré-sal brasileiro e aumento da demanda asiática passou a transformar a América Latina em uma das áreas mais importantes do mercado global de energia. Não por acaso, a China concentrou sozinha 31% das compras externas do petróleo latino-americano.

Do ponto de vista geopolítico, o governo Lula pôs em serviço a diplomacia brasileira para mediar a tensão entre Venezuela e Guiana. Essa atuação cria capital político, mas ainda não se converteu numa parceria energética estruturada de longo prazo — e é exatamente esse o gap que os analistas apontam.


Análise: o que pode acontecer

O caso guianense é uma aula — e um espelho. Ele mostra que crescimento de PIB a 40% ao ano não é sinônimo de desenvolvimento, especialmente quando a riqueza fica concentrada numa empresa estrangeira (ExxonMobil) que remunera o Estado local com royalties de apenas 2%. A Guiana corre o risco real de se tornar um petroestado sem o colchão institucional de um fundo soberano sólido e sem diversificação econômica.

Para o Brasil, o quadro é ambíguo, mas cheio de oportunidade. O país tem tudo que a Guiana precisa: tecnologia de deepwater, capacidade de refino, peso diplomático e demanda pelo tipo de óleo produzido no Bloco Stabroek. Porém, a janela não ficará aberta para sempre — ExxonMobil, Chevron e CNOOC já ocuparam os assentos principais na mesa.

Cenário base — parceria incremental: O mais provável no curto prazo é uma cooperação técnica gradual, com a Petrobras tentando ampliar presença na Margem Equatorial brasileira e usando o modelo guianense como referência. A diplomacia Lula-Ali mantém o canal aberto, mas sem um acordo energético bilateral estruturado, o Brasil seguirá como ator periférico no boom do vizinho.

Cenário otimista — aliança estratégica: Se o Brasil avançar na Margem Equatorial com a Petrobras como operadora e formalizar um acordo de cooperação técnica e infraestrutura com Georgetown, pode se posicionar como o parceiro regional que Cavagnari defende. Esse cenário exige destravar o licenciamento ambiental — hoje o principal gargalo — e superar a resistência interna ao avanço do petróleo no Amapá.

Cenário de risco — janela fechada: Caso a burocracia ambiental brasileira e as disputas políticas internas posterguem a Margem Equatorial indefinidamente, o Brasil perde terreno para players americanos e chineses, que já dominam o offshore guianense. O país ficaria de fora de um ciclo de investimentos de US$ 60 bilhões já em andamento, conforme mapeado pela Petronoticias.

A leitura mais provável da redação: o Brasil avançará, mas de forma incremental e lenta demais para capturar o pico do ciclo. A aposta analítica é que a Margem Equatorial levará ao menos mais dois anos para sair do papel de forma relevante — e o curinga é o licenciamento ambiental, que pode mudar o jogo em qualquer direção.


Perguntas frequentes

O que é o Bloco Stabroek, onde está o petróleo da Guiana?

É um bloco offshore operado pela ExxonMobil em parceria com a Hess e a CNOOC, localizado a cerca de 193 km da costa guianense. As reservas descobertas no bloco superam os 11 bilhões de barris de óleo equivalente, tornando-o um dos maiores achados petrolíferos das últimas décadas.

Por que o crescimento econômico da Guiana não melhorou a vida da população?

Porque a riqueza está concentrada num único setor exportador, com royalties pagos ao Estado de apenas 2% — bem abaixo dos cerca de 10% praticados no Brasil. Cerca de 41% dos guianenses ainda vivem abaixo da linha da pobreza, segundo dados citados por especialistas da FGV e da UFRJ.

O que é a Margem Equatorial e qual a relação com a Guiana?

É uma faixa da costa brasileira que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte, com potencial estimado entre 11 e 30 bilhões de barris de petróleo. Sua geologia é similar à da bacia Guiana-Suriname — e o sucesso do vizinho é justamente o principal argumento da Petrobras para explorar a região. O Plano de Negócios 2026-2030 da estatal prevê US$ 2,5 bilhões de investimento no trecho.

Qual é o maior risco econômico para a Guiana nos próximos anos?

O BID e o FMI apontam a queda do preço internacional do petróleo como o principal risco. A produção na Guiana só deixa de ser lucrativa se o Brent cair abaixo de US$ 28 por barril. Com o Brent oscilando em torno de US$ 64 em janeiro de 2026, a margem de segurança existe — mas uma recessão global poderia comprimir esse colchão.

Como o Brasil pode se tornar parceiro estratégico da Guiana?

Segundo o economista Daniel Cavagnari, o Brasil pode oferecer tecnologia, experiência em exploração e refino e infraestrutura logística. Além disso, a diplomacia brasileira já atua como mediadora do conflito fronteiriço entre Guiana e Venezuela — um capital político que, se bem aproveitado, pode abrir portas para uma parceria energética bilateral mais profunda.

Tags:#Guiana#petróleo#offshore#Petrobras#Margem Equatorial#geopolítica#América do Sul#economia

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