Ibovespa cai 7,22% em maio: pior mês desde 2023
Bolsa acumula queda de 7,22% em maio, pior mês desde fevereiro de 2023. Dólar sobe 1,82% e volta acima de R$ 5. Entenda o que está por trás da fuga de capital.

Ibovespa cai 7,22% em maio: o pior mês da bolsa brasileira desde 2023
Maio de 2026 será lembrado como um mês para esquecer na B3. A bolsa encerrou o período com uma queda de 7,22% — o pior desempenho mensal desde fevereiro de 2023, quando o índice recuou 7,49%. O dólar, na direção oposta, avançou 1,82% e voltou a fechar acima da barreira dos R$ 5. O quadro é o resultado de uma tempestade com ao menos três frentes simultâneas: fuga de capital estrangeiro, juros pressionados por mais tempo e ruído eleitoral crescente.
Os números que resumem o tombo
A bolsa de valores B3 fechou maio com queda acumulada de 7,22%, no pior desempenho mensal desde fevereiro de 2023. O dólar comercial avançou 1,82% no mês e voltou a encerrar acima de R$ 5, em meio à saída de investidores estrangeiros da bolsa brasileira e à mudança no fluxo global de capital.
Nesta sexta-feira (29), o Ibovespa caiu 0,73%, aos 173.787,49 pontos. A moeda norte-americana subiu R$ 0,011 (0,24%), cotada a R$ 5,0453.
A bolsa brasileira acumulou a sétima semana consecutiva de perdas, em uma sequência iniciada após o Ibovespa renovar recordes históricos em abril. Desde então, o índice caiu da faixa de 187 mil pontos para a casa dos 173 mil pontos. O indicador reduziu o ganho acumulado no ano para 7,86%.
Para quem acompanha o histórico da bolsa, a sequência chama a atenção: a série de perdas semanais é a maior desde uma sequência também de sete quedas entre abril e maio de 2004. De acordo com dados da LSEG, considerando a série histórica até 1982, o Ibovespa nunca caiu por mais do que sete semanas consecutivas.
O que derrubou a bolsa em maio?
1. Saída massiva de estrangeiros
O gatilho mais imediato foi o fluxo. O índice perdeu 7,22% em maio — a maior queda desde fevereiro de 2023 (-7,49%) — um movimento que tem como pano de fundo uma saída líquida de estrangeiros de R$ 14,1 bilhões em maio até o dia 27, excluindo ofertas de ações (IPOs e follow-ons).
Esse movimento não é isolado. Parte importante da série ganhadora de sete meses havia sido induzida pela rotação global de ativos a partir, em especial, do setor de tecnologia dos Estados Unidos. O que se vê agora é uma reversão desse movimento — e não apenas em retorno a Nova York, mas também direcionado a outros mercados com exposição a tecnologia, como Seul.
2. Juros altos por mais tempo
Além do fluxo externo, o mercado reagiu à percepção de juros elevados por mais tempo no Brasil e nos Estados Unidos. A economia brasileira cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 ante o trimestre anterior, resultado acima das expectativas e que reforçou dúvidas sobre a continuidade do ciclo de cortes da Selic.
A Selic está hoje em 14,5% ao ano, após o último corte de 0,25 ponto percentual decidido pelo Copom em abril. O mercado financeiro passou a prever uma queda mais lenta dos juros no Brasil em 2026. No Boletim Focus, a estimativa para a taxa Selic no fim do ano subiu para 13,25% ao ano, sinalizando que analistas esperam um ciclo de afrouxamento monetário menos intenso do que o projetado.
As previsões do mercado estão mais pessimistas. De acordo com o boletim Focus, a inflação oficial deverá fechar o ano em 4,86%, acima do teto da meta, de 4,5%. A XP Investimentos chegou a revisar sua projeção de Selic terminal para 13,50% ao final de 2026, citando o ambiente de inflação pressionada.
3. Ruído eleitoral e risco fiscal
O risco eleitoral voltou à mesa dos investidores. No início do mês, uma reportagem divulgou um áudio do senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Estrategistas têm apontado que o desempenho de maio reflete uma rotação de volta para o setor de tecnologia nos Estados Unidos e Ásia, bem como a perspectiva de um ciclo de cortes mais lento da Selic e incerteza com o cenário eleitoral.
O grande temor do ecossistema financeiro reside na convergência entre o debate político e as fragilidades do cenário fiscal do país. Em um ambiente onde a circulação de informações de bastidores ocorre em ritmo acelerado, qualquer sinalização de afrouxamento na responsabilidade fiscal por parte de pré-candidatos liga o sinal de alerta de quem define a alocação de grandes volumes de recursos.
4. Petróleo em queda e risco geopolítico
Investidores também acompanharam desdobramentos políticos e geopolíticos, incluindo a decisão dos Estados Unidos de classificar as facções PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. Os preços do petróleo fecharam em forte queda no mês diante da expectativa de um acordo entre Estados Unidos e Irã que possa reduzir tensões no Oriente Médio. O barril do tipo Brent caiu 17,4% em maio e encerrou esta sexta-feira cotado a US$ 91,12.
A queda do petróleo afetou pesadamente Petrobras, que concentra peso relevante no Ibovespa. Petrobras ON e PN cederam hoje 1,70% e 1,20%, respectivamente, e foram muito pressionadas pela correção do petróleo no mês: em maio, a ordinária recuou 14,62% e a preferencial, 14,43%.
Quais ações sofreram mais — e quais sobreviveram?
No período, 21 ações recuaram ao menos 10%, enquanto apenas 6 conseguiram superar a marca de alta de 10%. Cosan (CSAN3) e Magazine Luiza (MGLU3) lideraram as perdas, com desvalorizações de 25,49% e 25,25%, respectivamente. A pressão sobre os papéis refletiu resultados fracos no primeiro trimestre de 2026 e ruídos corporativos relevantes.
Do lado positivo, a Usiminas foi destaque de alta, com avanço de 34,63% em maio, beneficiada por revisões de recomendação de grandes bancos e pela queda nas importações de aço. O Goldman Sachs elevou a recomendação para compra no fim do período, apostando em melhora da dinâmica de oferta e demanda no mercado brasileiro de aço. Dados do banco mostram que as importações de aço recuaram 42% na comparação mensal em abril.
O que diz Wall Street sobre o Brasil
O UBS cortou a recomendação das ações brasileiras de "atrativas" para "neutra" nesta semana, citando uma mudança no perfil de risco versus retorno, acrescentando que a visão mais ampla para mercados emergentes continua construtiva.
O banco destacou em relatório que "três fatores adversos convergentes alteram o equilíbrio de risco-retorno: o aumento da incerteza política relacionada às eleições, um ciclo de afrouxamento monetário do BC mais curto e menos intenso, e a aceleração do afrouxamento fiscal no período pré-eleitoral".
Analistas do Itaú BBA destacaram que o Ibovespa está em tendência de baixa no curto prazo e terá caminho livre para uma realização de lucros mais intensa se ficar abaixo de 173.500 pontos. "Para sair dessa tendência de baixa e retornar a um cenário neutro, o Ibovespa terá que superar a região de 179.500 pontos", afirmaram.
Análise: o que pode acontecer
Maio de 2026 foi, acima de tudo, um mês de repricing. A narrativa que sustentou o rali do Ibovespa — rotação global de capital para emergentes, queda de juros e commodities valorizadas — foi parcialmente revertida em poucas semanas. O que chama mais atenção não é só o tamanho da queda (7,22%), mas o fato de que ela veio de um pico histórico: em 14 de abril, quando o índice renovou máxima de fechamento pela 18ª vez apenas em 2026, o avanço no ano chegava a 23,29%. O mercado que parecia blindado revelou sua fragilidade estrutural quando três vetores negativos convergiram ao mesmo tempo.
O nó central é fiscal e político: fatos recentes ligados à pré-campanha e a rearranjos partidários serviram de gatilho para a realização de lucros, resultando em quedas pontuais no Ibovespa e na aceleração da saída de capital estrangeiro. Especialistas e estrategistas avaliam que a proximidade real do calendário de votação tende a injetar uma dose crônica de volatilidade tanto no mercado de ações quanto no câmbio ao longo dos próximos meses. Ou seja: o ambiente não melhora antes de outubro — ele piora de forma previsível.
Cenário base — volatilidade gerenciada até as eleições
O cenário mais provável é de bolsa oscilando em banda larga entre 170 mil e 185 mil pontos até o primeiro turno em outubro. O Ibovespa mantém valuation atrativo com potencial de valorização relevante até o fim de 2026, mas passou a exigir mais seletividade. O valuation continua comprimido, os lucros projetados seguem avançando. Ainda assim, o investidor terá de conviver, ao menos até outubro, com um mercado mais reativo a eventos políticos, oscilações no petróleo e revisões de juros. Nesse cenário, o dólar orbita entre R$ 4,90 e R$ 5,20.
Cenário otimista — petróleo cai mais, juros cedem, candidato fiscal-friendly lidera
Se o acordo entre EUA e Irã avançar, o petróleo recuar ainda mais e as pesquisas eleitorais sinalizarem candidato comprometido com responsabilidade fiscal, o capital estrangeiro tende a retornar. O Ibovespa pode retomar a direção dos 185–190 mil pontos no segundo semestre. O dólar voltaria a testar R$ 4,80.
Cenário adverso — inflação sobe, Selic para de cair, fiscal piora
Se o cenário eleitoral se mostrar muito fora do que o mercado consegue enxergar, com sinalização de nova política econômica sem comprometimento fiscal, o dólar pode subir expressivamente. Uma alta expressiva da moeda desestabilizaria as projeções de inflação. Como consequência, a taxa Selic teria que permanecer em patamares mais elevados do que o atualmente previsto. Nesse caso, o Ibovespa testaria o suporte dos 165–168 mil pontos e o dólar poderia superar R$ 5,30.
A aposta analítica da redação: o cenário base é o mais provável. A bolsa não está cara em termos históricos e o PIB crescendo 1,1% no trimestre mostra que a economia real tem fôlego. Mas o Ibovespa dificilmente retomará a trajetória de máximas antes de o calendário eleitoral dar sinais mais claros. O curinga é o fiscal: qualquer sinalização de abandono do arcabouço por parte dos principais candidatos tem poder para transformar a volatilidade atual em queda estrutural.
Perguntas frequentes
quando o Ibovespa pode se recuperar?
O Ibovespa precisaria superar a região de 179.500 pontos para sair da tendência de baixa atual, segundo análise do Itaú BBA. No cenário base, uma recuperação mais consistente tende a depender da clareza do quadro eleitoral, o que só deve ocorrer no segundo semestre de 2026.
o que fez o dólar subir em maio de 2026?
O dólar avançou 1,82% em maio, voltando a fechar acima de R$ 5, impulsionado pela saída líquida de capital estrangeiro da bolsa brasileira, pela percepção de juros elevados por mais tempo e pela incerteza geopolítica, que pesou sobre ativos de mercados emergentes.
qual é a Selic hoje e o que o mercado espera para o fim de 2026?
A Selic está em 14,5% ao ano após o corte de 0,25 ponto percentual decidido em abril. O Boletim Focus do Banco Central projeta a taxa em 13,25% ao ano no final de 2026, mas casas como a XP estimam que ela pode encerrar o ano em até 13,50%, dado o ambiente inflacionário ainda pressionado.
quem ganhou e quem perdeu mais na bolsa em maio?
Cosan (CSAN3) e Magazine Luiza (MGLU3) lideraram as perdas, com quedas de 25,49% e 25,25%, respectivamente. Do lado positivo, Usiminas (USIM5) avançou 34,63% no mês, após revisões positivas de recomendação de grandes bancos e queda nas importações de aço.
como a queda da bolsa impacta o bolso do brasileiro?
Quem tem investimentos em fundos de ações ou PGBL/VGBL com perfil arrojado sente diretamente a queda. Indiretamente, o dólar mais alto pressiona o custo de combustíveis, insumos e produtos importados, contribuindo para a inflação acima da meta projetada pelo mercado em 4,86% para 2026.
Continue lendo



