Política & Mercado

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IPCA 2026: BTG revisa inflação para 5,3% após El Niño e Oriente Médio

BTG Pactual elevou projeção do IPCA de 4,9% para 5,3% em 2026. Entenda como El Niño e o conflito no Oriente Médio pressionam preços, juros e PIB.

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Daniel Krust
··9 min de leitura
Analista econômico diante de gráfico com projeção de IPCA em alta no Brasil em 2026 com impacto do El Niño e conflito no Oriente Médio

IPCA 2026: BTG revisa inflação para 5,3% após choques do El Niño e do Oriente Médio

O Brasil entrou em junho com um diagnóstico mais duro do que o esperado no início do ano. O BTG Pactual revisou suas projeções e o resultado aponta para uma economia que cresce no curto prazo, mas paga o preço em forma de inflação mais alta e juros elevados por mais tempo. O cenário externo e o clima viraram os dois grandes agravantes de um quadro que já era delicado.

O que o BTG revisou — e o que mudou

A estimativa do banco para o IPCA de 2026 saltou de 4,9% para 5,3%. O repique também alcançou as previsões de 2027, que foram ajustadas de 4,2% para 4,5%.

A deterioração do cenário doméstico reflete diretamente dois grandes focos de pressão: o conflito no Oriente Médio e o El Niño.

Não é apenas o BTG. A previsão para o IPCA deste ano foi elevada pelo mercado financeiro pela décima segunda semana seguida, estourrando o intervalo da meta. A meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual — ou seja, o teto está em 4,5%. Com o BTG projetando 5,3%, o IPCA ficaria 0,8 ponto acima do teto da meta de inflação.

No boletim Focus mais recente, a mediana das estimativas do mercado financeiro apontava IPCA de 5,09% no acumulado de 2026, número que está em alta há 12 semanas consecutivas.

O fator Oriente Médio: petróleo, diesel e fertilizante

Com a eclosão do conflito na região, a cotação internacional do petróleo se manteve em patamares elevados, pressionando os combustíveis. O mecanismo de transmissão é direto: diesel mais caro encarece o frete, que sobe o custo de tudo que vai da fazenda à prateleira.

A revisão do BTG reflete o recente choque nos preços do petróleo, que impacta diretamente os alimentos por meio do aumento do diesel e pressiona os bens industriais por conta da elevação dos custos. O cenário também contribui para uma maior persistência da inflação de serviços e para a desancoragem das expectativas.

O custo dos fertilizantes também foi pressionado pelo fechamento do Estreito de Hormuz durante o conflito. Com isso, as próximas safras podem registrar custos mais elevados, segundo economistas.

O BTG destacou que o conflito no Oriente Médio segue como um dos principais fatores de risco para a economia global, com as restrições no Estreito de Ormuz mantendo a preocupação com novas pressões sobre os preços da energia e os custos de transporte.

El Niño: a tempestade perfeita no carrinho de supermercado

Se a guerra pressiona pelos combustíveis, o El Niño ameaça pelo lado climático — e a combinação é explosiva para os alimentos.

A revisão para cima nas projeções de inflação de alimentos está associada aos impactos da guerra entre Irã e Israel e à possibilidade de ocorrência do fenômeno climático El Niño a partir do segundo semestre. Estimativas de instituições financeiras apontam alta superior a 7% nos preços da alimentação no domicílio ao longo de 2026.

Lucas Barbosa, economista da gestora AZ Quest, diz ter "um cenário bastante adverso com o El Niño" e projeta alta de 7,4% para alimentação no domicílio em 2026. No início do ano, a AZ Quest chegava a trabalhar com uma estimativa na casa de 2%. A revisão foi brutal.

Produtos de hortifrúti podem ser bastante impactados pelo El Niño por serem itens de ciclo mais curto de produção — o que significa que o repasse para os preços de eventuais choques de oferta tende a ser mais rápido.

As projeções mais específicas da AZ Quest para o acumulado de 2026 são alarmantes: cenoura com alta de 90,7%, tomate de 53,5%, batata-inglesa de 38% e cebola de 32,2%. Outros itens que devem pressionar o IPCA são o feijão (34,3%), o leite (14,8%) e a carne bovina (12,9%).

Segundo estudo da Ativa Investimentos, a inflação na média de 12 meses sobe cerca de 0,4% aproximadamente 6 meses após o sobreaquecimento provocado pelo El Niño. O IPCA de 2027 acumulado pode ter um acréscimo de 0,70 ponto percentual provocado pelo fenômeno climático, conforme previsão da Ativa.

Selic: último corte à vista, depois estabilidade

Diante desse quadro, o espaço para o Banco Central cortar juros murchou rapidamente. Mesmo reconhecendo que a deterioração do cenário inflacionário já justificaria uma interrupção imediata do ciclo, o BTG manteve como cenário-base um último corte de 0,25 ponto percentual na reunião de junho do Copom, o que levaria a Selic para 14,25% ao ano — patamar esperado pelo banco até o fim de 2026.

A próxima reunião do Copom para definir a Selic está marcada para os dias 16 e 17 de junho.

O Bank of America chegou à mesma conclusão por outro caminho. O BofA revisou sua projeção para a taxa Selic e passou a esperar apenas mais um corte em 2026, o que levaria a taxa básica a 14,25% ao fim do ano — ante 13,25% projetados anteriormente.

Segundo o BTG, "o principal risco é que continuar cortando juros amplifique a desancoragem das expectativas e reduza o espaço para flexibilização monetária em 2027".

PIB: o presente engana, o horizonte preocupa

O crescimento é o único dado que melhorou na revisão — mas só para 2026 e com ressalvas importantes.

Apesar do cenário mais pressionado para inflação e contas públicas, o BTG elevou ligeiramente sua projeção de crescimento para 2026: a estimativa do PIB passou de 1,9% para 2%, após a divulgação de um primeiro trimestre mais forte.

No primeiro trimestre de 2026, a economia do país cresceu 1,1% na comparação com o último trimestre de 2025.

O problema está no horizonte. Com a perspectiva de que o Banco Central terá que segurar os juros em patamares elevados por muito mais tempo para domar o IPCA, somada a um impulso fiscal que deve ficar próximo da neutralidade em 2027, a projeção do PIB para 2027 caiu de 1,6% para 1,1%.

A questão fiscal não fica de fora

No campo fiscal, o banco também piorou suas projeções para a dívida pública: a expectativa para a dívida bruta do governo geral passou para 80,9% do PIB em 2026 e 85% do PIB em 2027.

A revisão ocorre em meio ao aumento dos gastos parafiscais anunciados desde meados de 2025 — que, segundo o BTG, já somam cerca de R$ 275 bilhões. Só neste ano, essas medidas devem injetar mais R$ 142 bilhões na economia.

Com isso, o banco projeta déficit nominal equivalente a 8,9% do PIB em 2026 e 8,4% do PIB em 2027, refletindo principalmente o aumento das despesas com juros.

A Fitch Ratings converge com o diagnóstico. A agência aponta riscos de alta para suas projeções de 2026, citando o fenômeno El Niño, incertezas sobre eventuais reajustes de combustíveis e a persistência da inflação de serviços, reflexo do mercado de trabalho aquecido.

Análise: o que pode acontecer

O Brasil está diante de um dilema clássico e incômodo: a atividade surpreende positivamente no curto prazo, mas os motores desse crescimento — estímulos fiscais e de crédito em volume extraordinário — são os mesmos que alimentam a inflação e emperram a queda dos juros. O BTG não está só nesse diagnóstico; BofA, Fitch e Goldman Sachs chegaram, por caminhos distintos, à mesma conclusão de uma Selic mais alta por mais tempo. O pano de fundo geopolítico e climático transformou o que seria uma desaceleração gradual da inflação num problema estrutural para 2026 e 2027.

O que é mais preocupante na revisão do BTG não é o número em si — 5,3% está ruim, mas já está precificado pelo mercado — e sim a escalada das expectativas. Quando o Focus sobe pelo décimo segundo mês seguido e os bancos recuam na projeção de cortes da Selic, o risco real é a desancoragem persistir e obrigar o Copom a subir juros em 2027, não apenas pausar.

Cenário base — O Copom corta 0,25 ponto percentual na reunião de 16 e 17 de junho, levando a Selic a 14,25%, e então pausa o ciclo. O IPCA fecha 2026 entre 5% e 5,3%, acima do teto da meta. A atividade desacelera gradualmente em 2027 (PIB ao redor de 1,1%), o que ajuda a conter a inflação de serviços. É o cenário mais provável com base no consenso BTG, BofA e Fitch.

Cenário adverso — El Niño mais forte que o projetado no segundo semestre combina com persistência do conflito no Oriente Médio. A inflação de alimentos supera 8% em 12 meses, o IPCA estoura 5,5% e o Copom é forçado a sinalizar alta de juros ainda em 2026. O PIB de 2027 cai para abaixo de 1%, e a pressão sobre o câmbio — hoje relativamente bem-comportado — volta com força.

Cenário otimista — Armistício no Oriente Médio reduz o barril de petróleo abaixo de US$ 80, El Niño se mostra menos severo que as projeções climáticas e a inflação de alimentos fica na casa de 4-5%. Nesse caso, o Copom retoma cortes no início de 2027, a Selic cai para 13% até o fim daquele ano e o PIB de 2027 recupera pelo menos 0,5 ponto percentual.

A leitura mais provável desta redação é o cenário base, com risco assimétrico para o lado adverso. O curinga é a intensidade do El Niño no segundo semestre — variável que nenhum modelo econométrico controla com precisão.

Perguntas frequentes

Por que o BTG elevou a projeção do IPCA de 4,9% para 5,3% em 2026?

A revisão reflete dois choques simultâneos: o conflito no Oriente Médio, que mantém o petróleo em patamares elevados e pressiona combustíveis, fretes e fertilizantes; e a ameaça do El Niño no segundo semestre, que pode elevar os preços de alimentos acima de 7% no ano.

Quando o Copom decide sobre a Selic em junho de 2026?

A próxima reunião do Copom está marcada para os dias 16 e 17 de junho de 2026. O BTG, o Bank of America e outros bancos esperam um corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic de 14,5% para 14,25% ao ano — e depois uma pausa até o fim de 2026.

Quais alimentos devem ficar mais caros com o El Niño?

Segundo projeções da gestora AZ Quest, os produtos de hortifrúti lideram a alta. As estimativas para o acumulado de 2026 incluem cenoura (+90,7%), tomate (+53,5%), batata-inglesa (+38%), cebola (+32,2%), feijão (+34,3%), leite (+14,8%) e carne bovina (+12,9%).

O que acontece com o PIB do Brasil diante desse cenário?

O BTG elevou ligeiramente a projeção do PIB de 2026 para 2%, puxada pelo primeiro trimestre forte. Porém, a projeção para 2027 foi cortada de 1,6% para 1,1%, refletindo a expectativa de juros elevados por mais tempo e menor impulso fiscal.

O Brasil vai estourar a meta de inflação em 2026?

Sim, segundo a maioria dos analistas. A meta é 3% com teto de 4,5%. O BTG projeta IPCA de 5,3%, o Focus aponta 5,09% e a Fitch estima 5% — todos acima do limite superior da meta de inflação estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional.

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