Vale do Jequitinhonha: o plano federal chega à reta final
O GTI concluiu sua 7ª reunião com diretrizes para o Plano de Desenvolvimento. Entenda o que está em jogo — e o que pode travar a execução.

Vale do Jequitinhonha: o plano federal chega à reta final
Uma das regiões mais pobres do Brasil está na pauta do Governo Federal com uma intensidade incomum. Na última quinta-feira, 21 de maio de 2026, o Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) do Vale do Jequitinhonha realizou sua sétima e última reunião do ciclo atual — e o que saiu dela define os próximos passos de um esforço que envolve mais de duas dezenas de ministérios e dezenas de projetos concretos. A pergunta que vale responder: é retórica de sempre ou tem substância?
O que aconteceu na reunião de 21 de maio
O Governo Federal avançou, nesta quinta-feira (21), na construção de uma estratégia integrada para o desenvolvimento sustentável do Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais. Durante a sétima e última reunião do GTI foram apresentadas as diretrizes que irão orientar a consolidação da agenda estratégica para o território, na forma de um plano de desenvolvimento.
O GTI é coordenado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), em parceria com a Secretaria-Geral da Presidência da República e o Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO), e reúne representantes de 21 ministérios e oito órgãos federais com o objetivo de construir políticas públicas articuladas e territorializadas para a região.
Guta Torres, coordenadora-geral da Secretaria Nacional de Diálogos Sociais da Secretaria-Geral da Presidência, ressaltou que "o GTI nasceu da escuta das comunidades impactadas" e reafirmou o compromisso de manter canais permanentes de diálogo com o território.
De onde veio esse processo — linha do tempo
O esforço não nasceu ontem. A 1ª Reunião Ordinária do GTI Jequitinhonha ocorreu no dia 18 de julho de 2025, com a apresentação dos objetivos, pactuação da metodologia, criação de quatro subgrupos temáticos e definição dos ministérios participantes.
Ao cabo de 120 dias de trabalho, a 4ª Reunião Ordinária, realizada em novembro de 2025, aprovou o relatório final com 48 projetos a serem implementados até o final de 2026. Esse número subiu depois: o GTI Jequitinhonha apresenta hoje 63 projetos a serem implementados pelo governo federal nos 51 municípios que compõem a região, no período de 2025 a 2026.
Em fevereiro de 2026, o GTI retomou os trabalhos. No dia 23 de fevereiro, foi realizada a primeira reunião do GTI em 2026. Além da organização das visitas técnicas previstas para março e abril, os integrantes debateram a metodologia para a definição das diretrizes que irão compor o Plano de Desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha até o final deste ano.
Em março, o trabalho foi para o campo: o GTI realizou capacitações e palestras nos dias 25 e 26 de março em Araçuaí (MG), na segunda edição de atividades do projeto de Capacitação em Temas de Desenvolvimento Regional e Sustentável da Agenda de Desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha.
A região: por que ela importa — e por que foi esquecida
Instituído pelo Comitê Executivo do Plano Nacional de Desenvolvimento Regional (CE/PNDR), o GTI tem como missão articular políticas públicas voltadas ao desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha, região marcada por vulnerabilidades socioeconômicas, mas também por expressivo potencial produtivo, cultural e ambiental.
Os números do território contam a história da exclusão. Os territórios do Alto e do Médio/Baixo Jequitinhonha são constituídos por 59 municípios e somam uma população de aproximadamente 770 mil pessoas, das quais 38% vivem no meio rural — percentual duas vezes maior que o do estado. Em termos econômicos, respondem por apenas 1,3% do PIB mineiro.
A região tem baixa disponibilidade de recursos hídricos e dependência econômica do setor de serviços, da administração pública e da agricultura familiar. A indústria tem participação muito pequena, especialmente no subsetor de transformação, que sofre com o isolamento relativo da região, lacunas de infraestrutura e falta de mão de obra qualificada.
O lítio: oportunidade e tensão no mesmo filão
O elemento que mudou o cálculo político sobre a região é o lítio. O Vale do Jequitinhonha abriga a maior reserva de lítio do Brasil e uma das maiores do mundo, fator que vem ampliando o interesse de investimentos na região. A exploração do mineral, impulsionada pela demanda global por tecnologias de energia limpa e veículos elétricos, representa uma oportunidade de dinamização econômica, mas também exige atenção aos impactos sociais e ambientais sobre as comunidades locais.
Os dados de impacto econômico já aparecem nos municípios com atividade minerária. O PIB do Vale do Jequitinhonha alcançou R$ 12,56 bilhões em 2023, segundo o IBGE. Entre as cidades com atividades minerárias ligadas ao lítio, Araçuaí e Itinga tiveram o PIB dobrado após o lançamento do projeto Vale do Lítio, com aumento de 108,1% e 91,3% entre 2021 e 2023, respectivamente. No mesmo período, o PIB per capita de Araçuaí cresceu 122,7% e o de Itinga, 109,5%.
Desde a implementação do Vale do Lítio, em 2023, foram atraídos R$ 6,9 bilhões em investimentos privados, com previsão de cerca de 6 mil empregos gerados. Um dos exemplos mais recentes: o investimento de R$ 220 milhões da empresa indiana Altmin na Companhia Brasileira de Lítio (CBL) para ampliação de sua planta de refinaria em Divisa Alegre, no Norte de Minas.
Mas a tensão é real. A coordenadora-geral do MIDR, Lara Amorelli, destacou que "o desenvolvimento não nasce de soluções impostas de fora" e apontou que "é fundamental considerar os impactos provocados pela expansão da mineração, especialmente do lítio, que traz novos desafios para comunidades tradicionais e povos originários".
O que já está em execução
Paralelamente ao planejamento, algumas ações já saíram do papel. Entre elas está a Rota do Mel, iniciativa das Rotas de Integração Nacional voltada ao fortalecimento da apicultura e da meliponicultura na região. Neste ano, produtores locais realizaram a primeira exportação de 20 toneladas de mel silvestre para a Bélgica, resultado do fortalecimento da cadeia produtiva regional.
Outro destaque é o Programa Cidades Intermediadoras, estratégia que busca promover maior equilíbrio territorial e interiorização do desenvolvimento, fortalecendo municípios estratégicos e ampliando o acesso da população a serviços e oportunidades econômicas.
Na assistência social, o programa Aprimora Rede+ atende cinco municípios do Vale — Diamantina, Minas Novas, Virgem da Lapa, Araçuaí e Itinga — com foco no fortalecimento da rede socioassistencial e melhoria da gestão das entidades do SUAS, com investimento total de R$ 1,2 milhão.
Na preservação cultural, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) formalizou acordo com o Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), campus Araçuaí, para implementação de um projeto voltado ao fortalecimento de práticas dos saberes tradicionais da região, com previsão de início em 2026 e aporte de R$ 350 mil.
Análise: o que pode acontecer
O ponto central desta agenda é a tensão estrutural que ela carrega: o Vale do Jequitinhonha está na mira do capital global pelo lítio, mas sua população historicamente não ficou com os frutos dos ciclos extrativistas anteriores. A existência de um GTI com 21 ministérios e 63 projetos mapeados é algo raro na política regional brasileira — e, por isso mesmo, merece escrutínio proporcional. O risco mais concreto não é a falta de intenção, mas a fragilidade institucional da execução: planos interministeriais costumam se diluir na disputa por prioridade orçamentária e na rotatividade dos quadros técnicos.
A coordenadora do MIDR afirmou que o desenvolvimento deve respeitar "as potencialidades que já existem no território", enquanto a representante da Secretaria-Geral destacou o papel da escuta das comunidades. Ambas as falas são corretas — mas a tensão entre velocidade do investimento minerário e capacidade de resposta do Estado é real e está documentada em outras experiências extrativistas no Brasil.
Cenário base — execução parcial com avanço desigual: O plano avança em ações de menor resistência institucional (assistência social, capacitação, apicultura) enquanto os projetos que demandam mais orçamento e coordenação federativa ficam em segundo plano. Esse é o padrão histórico de agendas interministeriais no Brasil, e é o cenário mais provável. O resultado seria melhora pontual em alguns municípios, sem transformação estrutural da desigualdade.
Cenário otimista — ancoragem no lítio gera tração: Se o fluxo de investimentos privados no lítio continuar acelerado e o governo conseguir vincular licenciamentos e contrapartidas sociais ao plano, a agenda ganha financiamento implícito e pressão política para avançar. O precedente dos municípios de Araçuaí e Itinga — com PIB dobrado entre 2021 e 2023 — sugere que o efeito multiplicador é real, desde que capturado localmente.
Cenário de risco — captura extrativista sem redistribuição: A mineração avança na velocidade do mercado, os projetos do GTI ficam na gaveta e as comunidades tradicionais sofrem os impactos sem receber os benefícios. Esse foi o roteiro do ciclo da madeira e do garimpo em outras regiões. Não é inevitável, mas a ausência de mecanismos vinculantes de redistribuição de royalties ou contrapartidas locais é uma lacuna real no arranjo atual.
A leitura mais provável desta redação é o cenário base: avanço real, mas heterogêneo. O curinga é a política eleitoral de 2026 — com eleições municipais já concluídas e as gerais se aproximando no horizonte, a tentação de transformar o plano em vitrine de campanha é grande. Quando isso acontece, projetos estruturantes cedem espaço para inaugurações de menor impacto, mas de maior visibilidade.
Perguntas frequentes
O Plano de Desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha já foi aprovado?
Não. O que foi concluído em maio de 2026 foi a última reunião do GTI, que apresentou as diretrizes que vão orientar a consolidação do plano. O documento final ainda está em elaboração e deverá ser concluído até o fim de 2026.
Quantos projetos o GTI mapeou para a região?
O GTI Jequitinhonha apresenta 63 projetos a serem implementados pelo governo federal nos 51 municípios da região, no período de 2025 a 2026, com participação de 21 ministérios e outros órgãos federais.
O que é o Vale do Lítio e qual sua relação com o Jequitinhonha?
O Vale do Lítio é um projeto do Governo de Minas Gerais, lançado em 2023, para desenvolver a cadeia produtiva do lítio no norte e nordeste do estado. O Vale do Jequitinhonha abriga a maior reserva de lítio do Brasil. Desde o lançamento do projeto, a região atraiu R$ 6,9 bilhões em investimentos privados e tem previsão de cerca de 6 mil empregos gerados.
Quem são os órgãos que comandam o GTI Jequitinhonha?
O GTI é coordenado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), em parceria com a Secretaria-Geral da Presidência da República e o Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO).
O que muda na prática para a população local se o plano for executado?
O plano prevê ações em infraestrutura, assistência social, capacitação profissional, fortalecimento de cadeias produtivas locais (como apicultura e artesanato) e integração de serviços públicos nos 51 municípios da região. A transformação efetiva depende da execução orçamentária e da capacidade de coordenação entre os ministérios envolvidos.
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