Selic travada acima de 14%: fiscal pressiona e mercado revê cortes
Com déficit fiscal projetado em R$ 59,8 bi e inflação acima de 5%, bancos revisam para cima a Selic de fim de ano. Copom decide em 17 de junho.

Selic travada acima de 14%: o fiscal fora de controle que trava os cortes de juros
O ciclo de queda da Selic, que animou investidores e devedores no início de 2026, perdeu fôlego de forma acelerada. A combinação de um déficit público em expansão, inflação rodando acima do teto da meta e incertezas geopolíticas fez o mercado financeiro rever, semana após semana, para cima a estimativa de onde os juros vão parar. A pergunta que ninguém mais consegue responder com confiança é simples: quanto mais essa taxa vai cair — ou vai cair mesmo?
Da euforia aos freios: como o ciclo de cortes esfriou
O Banco Central reduziu a Selic para 14,5% ao ano na reunião de abril — o segundo corte seguido de 0,25 ponto percentual —, mesmo em meio às tensões da guerra no Oriente Médio. Era o sinal de que o ciclo havia começado de fato, depois de um longo período de espera.
De junho de 2025 a março deste ano, a Selic ficou em 15% ao ano, o maior nível em quase 20 anos. Os dois cortes realizados — em março e abril — foram bem-vindos, mas logo o ambiente mudou de tom. Após reduzir a Selic de 14,75% para 14,5% ao ano, o Copom optou por não indicar uma tendência para a próxima reunião, afirmando em comunicado que um "forte aumento da incerteza" demandava "serenidade e cautela" na condução da política monetária.
A cautela se revelou profética. Nas semanas seguintes, as projeções de inflação e de juros foram escalando — e as revisões de grandes bancos começaram a chegar.
O que o mercado está precificando agora
O Comitê de Política Monetária chega à reunião de 17 de junho em um ponto delicado: a Selic ainda está alta, em 14,5% ao ano, mas o ambiente econômico ficou menos confortável para novos cortes.
As revisões das casas de análise contam a história com clareza. O Bank of America alterou sua projeção para a Selic no fim de 2026, elevando-a para 14,25%, enquanto o mercado aposta em uma postura conservadora do Copom, com espaço reduzido para cortes na reunião de 16 e 17 de junho. A Genial Investimentos e o Banco Pine defendem a interrupção do ciclo desde já, mantendo a taxa em 14,00%, enquanto a XP projeta apenas duas reduções de 0,25 ponto percentual, encerrando o ano também em 14,00%.
O BNP Paribas prevê um corte de 0,25 ponto em junho e uma pausa prolongada até dezembro, enquanto o Itaú estima a Selic terminal em 13,75%. O consenso — ainda que fragmentado — aponta para algo entre 13,5% e 14,25% no encerramento do ano, muito longe das projeções otimistas de 12% feitas no início de 2026.
No Boletim Focus divulgado em 8 de junho, a estimativa dos analistas para a Selic ao fim de 2026 subiu de 13,25% para 13,5% ao ano. Uma semana antes, a projeção era menor. O movimento é revelador: cada semana traz uma nova revisão para cima.
A raiz do problema: contas públicas sem âncora visível
Por trás da reavaliação dos juros está um diagnóstico fiscal que o mercado não consegue ignorar. O governo federal apresentou em março uma revisão relevante das contas públicas: a estimativa de déficit primário saltou de R$ 22,9 bilhões, prevista no Orçamento aprovado, para R$ 59,8 bilhões.
A meta fiscal para 2026 prevê superávit de 0,25% do PIB, equivalente a R$ 34,3 bilhões, com margem de tolerância de 0,25 ponto percentual para cima ou para baixo. Com a revisão, o governo passou a trabalhar com um resultado que, mesmo após exclusão de despesas excepcionais, se mantém no limite da banda de tolerância — e o mercado não acredita que o número vai melhorar até dezembro.
Em março de 2026, o governo central registrou déficit primário de R$ 73,783 bilhões — o pior resultado já registrado para o mês desde o início da série histórica, em 1997, e uma forte deterioração frente ao superávit de R$ 1,527 bilhão registrado em março do ano passado.
A foto estrutural também não anima. A dívida bruta do governo geral alcançou cerca de 78,7% do PIB em janeiro de 2026, enquanto o estoque da dívida pública federal atingiu R$ 8,6 trilhões, com elevação do custo médio da dívida em função do ciclo recente de alta da Selic.
O Brasil atravessa um momento de deterioração fiscal, marcado por déficit permanente, resultado de uma combinação de descontrole nos gastos e elevado endividamento, e análises econômicas indicam que a atual administração federal caminha para registrar o maior rombo nas contas públicas desde a estabilização da moeda com o Plano Real, em 1994.
Inflação acima do teto: o combustível que mantém os juros altos
Não é só o fiscal que trava o Banco Central. A inflação também empurra contra qualquer ciclo de cortes mais agressivo. O dado que mais pesa contra uma queda mais forte da Selic é a expectativa de inflação: o Boletim Focus mais recente mostrou que os economistas elevaram a projeção do IPCA de 2026 para 5,11%, número que está acima do teto da meta, que é de 4,5%.
A previsão para o IPCA foi elevada pela décima terceira semana seguida, estourando o intervalo da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual.
O vetor externo agrava o quadro. A guerra no Oriente Médio, refletindo no aumento dos preços de combustíveis e de alimentos, dificulta o trabalho do Copom. Nos Estados Unidos, o payroll mostrou a criação de 172 mil postos em maio, acima das expectativas, acendendo alerta para um possível aumento de juros por lá — o que reduziria ainda mais o espaço do BC brasileiro para afrouxar a política monetária sem gerar fuga de capitais.
Para o diretor de pesquisa do Banco Pine, o ajuste da curva de juros é uma "reprecificação necessária" diante de um ambiente com "inflação mais persistente, déficits fiscais elevados e aumento dos riscos geopolíticos", com o mercado incorporando juros neutros mais altos diante da "piora da dinâmica fiscal global".
Impacto no bolso: crédito caro, consumo freado
Juros altos não são um debate abstrato de economistas. Na prática, quando o Copom mantém a taxa básica elevada, o objetivo é conter a demanda aquecida — mas os juros mais altos encarecem o crédito, estimulam a poupança e podem dificultar a expansão da economia.
Para quem precisa de financiamento habitacional, crédito pessoal ou expansão de negócios, cada reunião do Copom é um teste de paciência. O adiamento do ciclo de cortes significa mais tempo com parcelas caras, custo de capital elevado para empresas e menor apetite por consumo.
Análise: o que pode acontecer
O nó fiscal brasileiro tem uma lógica perversa e bem documentada: déficit elevado pressiona a dívida, que exige juros mais altos para ser financiada, o que por sua vez eleva o próprio custo da dívida — um círculo vicioso que o arcabouço fiscal ainda não conseguiu romper na percepção do mercado. A Selic alta funciona como prêmio de risco para atrair investidores: se o retorno financeiro for baixo, a atratividade dos títulos diminui. Na prática, os juros altos servem para que os agentes financeiros continuem financiando a dívida brasileira. Essa é a armadilha em que o Brasil vive há anos, e o cenário atual sugere que a saída, se vier, será lenta.
Cenário base — pausa ou corte mínimo em junho: O Copom deve decidir entre manter a Selic em 14,5% ou reduzir 0,25 ponto para 14,25%, encerrando o ciclo ativo por tempo indeterminado. O Bank of America prevê "apenas um último corte de 25 pontos-base em junho, seguido por uma pausa prolongada até meados de 2027", retomando o afrouxamento apenas em conjunto com o Fed. É o cenário mais provável dado o ambiente atual.
Cenário de piora fiscal: Se os dados fiscais do segundo trimestre confirmarem aceleração do déficit além da revisão de março — especialmente com ano eleitoral pressionando gastos estaduais (estados devem encerrar 2026 com déficit de R$ 6 bilhões, revertendo o superávit de R$ 6,6 bilhões de 2025, segundo a XP) —, a curva de juros futuros pode se abrir ainda mais, inviabilizando novos cortes até 2027.
Cenário de alívio: Uma desaceleração mais rápida da inflação em maio e junho, combinada com arrefecimento do conflito no Oriente Médio e sinal fiscal mais crível do governo federal, poderia reabrir espaço para 2 ou 3 cortes adicionais até dezembro, levando a Selic próximo a 13,5%. A projeção da Fitch converge com a do Goldman Sachs, que projeta a Selic em 13% no fim de 2026 — mas esse caminho exige uma combinação de boas notícias que, no ambiente atual, parece improvável sem uma mudança de cenário relevante.
A leitura mais provável da redação: o Copom fará no máximo um corte em junho e pausará o ciclo, com a Selic encerrando 2026 na faixa de 13,5%–14,0%. O curinga é o fiscal: se o governo não demonstrar controle convincente das despesas no segundo semestre — em pleno ano eleitoral —, a Selic pode encerrar 2026 mais perto de 14% do que qualquer casa de análise gostaria de admitir.
Perguntas frequentes
Qual é a Selic hoje, em junho de 2026?
A Selic está em 14,5% ao ano, definida na última reunião do Copom em 29 de abril de 2026.
Quando é a próxima reunião do Copom?
A próxima reunião do Copom está agendada para os dias 16 e 17 de junho de 2026.
Por que o mercado revisou a Selic para cima em 2026?
O principal motivo é a expectativa de inflação: o Boletim Focus mostrou que os economistas elevaram a projeção do IPCA de 2026 para 5,11%, acima do teto da meta. Some-se a isso a deterioração fiscal e as incertezas geopolíticas com a guerra no Oriente Médio.
Qual é o déficit fiscal do Brasil em 2026?
A previsão oficial do governo é de déficit efetivo de R$ 59,8 bilhões no ano. Se confirmada, será mais um ano de contas no vermelho.
Como a Selic alta afeta o cidadão comum?
Juros altos encarecem o crédito — de financiamento imobiliário a crédito pessoal — e elevam o custo de capital das empresas, o que pode segurar contratações e investimentos. Para quem tem dívidas com taxas variáveis indexadas ao CDI, cada mês com a Selic acima de 14% representa mais despesa no orçamento familiar.
Continue lendo



